Deixei os braços pousarem na madeira inchada e1
úmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a
chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá embaixo,
na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar na4
cadeira da varanda a apanhar ar fresco, senti que despedir-me
da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas
irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha7
rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma
multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou
Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só10
palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras
de dizer: infância.
A chuva parou. O mais difícil era saber parar as13
lágrimas.
O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de
chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de16
despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se
transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas.
Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim19
como se fossem fantasmas mujimbeiros* que dizem segredos
do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu
ouvido de criança.22
Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.
Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a
evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas25
caminhadas. O recomeçar das coisas.
— Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
— Vão pra casa, filho.28
— Tantas vezes de um lado para o outro?
— Uma casa está em muitos lugares — ela respirou
devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.31
*Mujimbeiro: fofoqueiro.
Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro:
Língua Geral, 2007, p. 145-6 (com adaptações).
A respeito do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
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No trecho “Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança” (R.19-22), o narrador apresenta, por meio de uma comparação, uma das razões de não gostar de despedidas, caracterizando, de forma restritiva, o elemento com que compara as despedidas.
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Os sentidos e a correção gramatical do primeiro parágrafo do texto seriam mantidos e as relações sintáticas estariam bem identificadas caso o autor tivesse adotado, nesse trecho, a seguinte pontuação: Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida; abri um pouco a janela, a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela; ouvi, lá embaixo, na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar ar fresco; senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua; senti que rua não era um conjunto de casas, mas uma multidão de abraços; a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia, ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.
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Do trecho “a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância” (R.9-12) depreende-se que a rua em que o narrador morava passou a ter, para ele, sentido mais significativo.
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O fato de o texto ter sido escrito na primeira pessoa do singular justifica o emprego da linguagem sinestésica em trechos como “O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas” (R.15-16), recurso inviável em textos escritos na terceira pessoa.