Ainda que se soubessem todas as palavras de cada1
figura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com o
seu simples registro uma composição da arte. A obra de arte
não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisas4
essenciais. A busca desse essencial expressivo é que constitui
o trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do
historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos são7
outros, para atingir a comunicação. Há um problema de
palavras. Um problema de ritmos. Um problema de
composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto,10
sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural da
sua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil
se torna quase sempre a um criador explicar a própria13
criação. No caso, porém, de um poema de mais objetividade,
como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas,
porque foram aprendidas, à proporção que ele se foi16
compondo.
Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi
sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pude19
observar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira por
que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo,
sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida.22
O Romanceiro foi construído tão sem normas
preestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que
cada poema procurou a forma condizente com sua25
mensagem. A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os
artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e
submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cada28
instante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do
público. Porque há obras que existem apenas para o artista,
desinteressadas de transmissão; outras que exigem essa31
transmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço,
para alcançá-la. O Romanceiro é desta segunda espécie.
Quatro anos de quase completa solidão — numa34
renúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros de
toda espécie relativos ao especializadamente século 18 —
ainda pareceram curtos demais para uma obra que se37
desejava o menos imperfeita possível, porque se impunha,
acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se
confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história.40
E era uma história feita de coisas eternas e
irredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições…
Mas porque esses grandiosos acontecimentos já43
vinham preparados de tempos mais antigos e foram o
desfecho de um passado minuciosamente construído — era
preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro do46
ouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligando
cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que
prende e imobiliza num destino doloroso.49
Cecília Meireles. Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência.
In: Romanceiro da Inconfidência. 3.ª ed., Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2005, p. XVI-XVII (com adaptações).
Acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto, extraído da obra de Cecília Meireles, na qual a autora explica a criação do Romanceiro da Inconfidência, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
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No trecho “o rastro do ouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligando cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que prende e imobiliza num destino doloroso” (R.46-49), verifica-se gradativa intensificação das ações nele relatadas, expressa pelo emprego da locução com verbo no gerúndio e de preposição que denota limite, e, tal como ocorre no trecho “que falavam, que se confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história” (R.39-40), pela ordem em que se apresentam os núcleos verbais que constituem as orações adjetivas.
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Da leitura do primeiro parágrafo do texto depreende-se que, para a autora, não foi tão difícil explicar a criação do Romanceiro da Inconfidência quanto geralmente é difícil para os artistas explicar a criação de suas obras menos objetivas. Isso se explica porque o Romanceiro da Inconfidência, dado o tema, apresenta não só o “essencial expressivo”, mas também aspectos objetivos.
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São pertinentes as seguintes inferências a partir da pontuação e dos mecanismos de coesão empregados no período entre as linhas 26 e 30: entre todos os fantasmas, alguns são conhecidos por todos os artistas, e o poeta harmoniza, a todo momento, o timbre de sua voz à audiência.
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Depreende-se da leitura do texto que a autora colocou-se a serviço da obra, cabendo-lhe adequar a mensagem à forma, uma vez que o tema impunha seu próprio desenvolvimento.