CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2011
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Questão q3 de 2011

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Ainda que se soubessem todas as palavras de cada1
figura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com o
seu simples registro uma composição da arte. A obra de arte
não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisas4
essenciais. A busca desse essencial expressivo é que constitui
o trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do
historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos são7
outros, para atingir a comunicação. Há um problema de
palavras. Um problema de ritmos. Um problema de
composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto,10
sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural da
sua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil
se torna quase sempre a um criador explicar a própria13
criação. No caso, porém, de um poema de mais objetividade,
como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas,
porque foram aprendidas, à proporção que ele se foi16
compondo.
Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi
sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pude19
observar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira por
que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo,
sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida.22
O Romanceiro foi construído tão sem normas
preestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que
cada poema procurou a forma condizente com sua25
mensagem. A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os
artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e
submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cada28
instante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do
público. Porque há obras que existem apenas para o artista,
desinteressadas de transmissão; outras que exigem essa31
transmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço,
para alcançá-la. O Romanceiro é desta segunda espécie.
Quatro anos de quase completa solidão — numa34
renúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros de
toda espécie relativos ao especializadamente século 18 —
ainda pareceram curtos demais para uma obra que se37
desejava o menos imperfeita possível, porque se impunha,
acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se
confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história.40
E era uma história feita de coisas eternas e
irredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições…
Mas porque esses grandiosos acontecimentos já43
vinham preparados de tempos mais antigos e foram o
desfecho de um passado minuciosamente construído — era
preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro do46
ouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligando
cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que
prende e imobiliza num destino doloroso.49
Cecília Meireles. Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência.
In: Romanceiro da Inconfidência. 3.ª ed., Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2005, p. XVI-XVII (com adaptações).

Considerando as relações morfossintáticas no texto bem como os recursos estilísticos nele empregados, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. No texto, as formas verbais “encontra” (R.21), “falavam” (R.39) e “prende” (R.49) são intransitivas.

  2. Os termos “uma composição da arte” (R.3) e “a mesma verdade do historiador” (R.6-7) exercem, na oração em que se inserem, função de complemento verbal.

  3. Os vocábulos “decorrência” (R.11), “condizente” (R.25) e “irreprimível” (R.26) regem termos que lhes complementam, necessariamente, o sentido.

  4. O trecho “uma obra que se desejava o menos imperfeita possível” (R.37-38) poderia ser reescrito, sem prejuízo gramatical ou de sentido para o texto, da seguinte maneira: uma obra que era desejada a menos possível imperfeita.