Poucos depoimentos eu tenho lido mais emocionantes1
que o artigo-reportagem de Oscar Niemeyer sobre sua
experiência em Brasília. Para quem conhece apenas o arquiteto,
o artigo poderá passar por uma defesa em causa própria — o4
revide normal de um pai que sai de sua mansidão costumeira
para ir brigar por um filho em quem querem bater. Mas, para
quem conhece o homem, o artigo assume proporções7
dramáticas. Pois Oscar é não só o avesso do causídico, como
um dos seres mais antiautopromocionais que já conheci em
minha vida.10
Sua modéstia não é, como de comum, uma forma
infame de vaidade. Ela não tem nada a ver com o conhecimento
realista — que Oscar tem — de seu valor profissional e de suas13
possibilidades. É a modéstia dos criadores verdadeiramente
integrados com a vida, dos que sabem que não há tempo a
perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo,16
por isso mesmo que, no indivíduo, é tudo tão frágil e precário.
Oscar não acredita em Papai do Céu, nem que estará
um dia construindo brasílias angélicas nas verdes pastagens do19
Paraíso. Põe ele, como um verdadeiro homem, a felicidade do
seu semelhante no aproveitamento das pastagens verdes da
Terra; no exemplo do trabalho para o bem comum e na criação22
de condições urbanas e rurais, em estreita intercorrência, que
estimulem e desenvolvam este nobre fim: fazer o homem feliz
dentro do curto prazo que lhe foi dado para viver.25
Eu acredito também nisso, e quando vejo aquilo em
que creio refletido num depoimento como o de Oscar
Niemeyer, velho e querido amigo, como não me emocionar?28
Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor.
Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982, p. 134-5 (com adaptações).
Acerca dos mecanismos de coesão empregados no texto, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
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A elipse em “nem que estará” (R.18) e o emprego do pronome anafórico “ele” (R.20) são mecanismos de coesão utilizados para referenciar o substantivo “Oscar” (R.18).
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Na linha 3, o vocábulo “arquiteto” retoma por substituição o nome próprio “Oscar Niemeyer”, empregado na linha 2, mecanismo que corresponde a uma variedade de metonímia e por meio do qual se evita a repetição de vocábulo.
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O período que finaliza o primeiro parágrafo está na ordem inversa, como indica o emprego inicial da conjunção “Pois”, que introduz uma oração subordinada anteposta à oração principal.
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Dada a propriedade que assume o pronome “este” nos mecanismos coesivos empregados no trecho “que estimulem e desenvolvam este nobre fim” (R.23-24), não é facultada a seguinte reescrita: que estimulem este nobre fim e o desenvolvam.