Fragmento I
1 Macunaíma
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói1
da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite.
Houve um momento em que o silêncio foi tão grande
escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas4
pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro
passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar7
exclamava:
— Ai! Que preguiça!…
e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no10
jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e
principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho
e Jiguê na força do homem. 13
Fragmento II
9 Carta pras icamiabas
Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.1
Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis,
São Paulo.
Senhoras:4
Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e
a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas
linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. É7
bem verdade que na boa cidade de São Paulo — a maior do
universo, no dizer de seus prolixos habitantes — não sois
conhecidas como “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo10
apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes
ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois
chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais13
dislates da erudição, porém heis de convir conosco que, assim,
ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina
respeitável da tradição e da pureza antiga.16
(…)
Macunaíma, Imperator
Mário de Andrade. Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 13, 97 e 109.
Considerando os aspectos linguísticos e a estrutura da narrativa nos fragmentos apresentados, extraídos da obra Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
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Ambos os fragmentos apresentam a estrutura textual típica da narrativa, recurso empregado pelo autor como forma de manter a coerência dos fatos narrados.
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Em ambos os fragmentos, encontram-se traços de subjetividade: no primeiro, do narrador; no segundo, do autor da carta.
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Na linha 12 do fragmento I, a oração “que tinha”, sintática e semanticamente dispensável para o texto, caracteriza-se por ter um pronome relativo como sujeito sintático.
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Observa-se, nos fragmentos apresentados, que o narrador onisciente do primeiro fragmento não se faz presente no segundo.