(…) na questão de se o mundo é mais digno de riso ou1
de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem
ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava
Heráclito, eu, para defender, como sou obrigado, a parte do4
pranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a
primeira propriedade do racional é o risível: e digo que a maior
impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o7
pranto é o uso da razão. (…)
Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os
homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este mundo,10
mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria não
deste nosso mundo, mas daqueles seus mundos.
E com razão, porque a matéria de que eram13
compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É
certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo.
Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundo16
ou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim,
senhores, mo parece que Demócrito não ria, mas que
Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo.19
Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria
sempre: logo não ria. A consequência parece difícil e evidente.
O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da22
admiração, e cessando a novidade ou a admiração, cessa
também o riso; o como Demócrito se ria dos ordinários
desconcertos do mundo, o que é ordinário e se vê sempre, não25
pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria,
rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso.
Padre Antônio Vieira. Sermão da sexagésima. In: J. Verdasca (Org. e coord.).
Sermões escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 190-2.
Com relação à análise linguística de passagens do texto, assinale a opção correta.
-
A No trecho “A mim, senhores, mo parece que Demócrito não ria” (R.17-18), evidenciam-se três características estilísticas da linguagem textual: obviedade, barbarismo e concisão.
-
B No primeiro e no segundo parágrafos, o autor utiliza a coordenação para ligar orações substantivas introduzidas pelo conectivo subordinativo “se”.
-
C Dada a dependência sintático-semântica do trecho “porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso” (R.13-14) à expressão “com razão” (R.13), o período iniciado à linha 13 poderia ser reescrito, sem prejuízo do sentido ou da correção gramatical do texto, da seguinte forma: Eis a razão por que a matéria que eram compostos os seus mundos imaginados era toda de riso.
-
D Constitui proposta de reescrita coerente e gramaticalmente correta para o trecho “Confesso que a primeira propriedade do racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso” (R.5-7) a seguinte: O que eu confesso é que a primeira propriedade do racional é o risível; e o que eu digo é que a maior impropriedade da razão é o riso.
-
E O autor explora as possibilidades semânticas da palavra “mundo” no trecho “É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo” (R.14-15), em que o vocábulo tem como referente, em ambas as ocorrências, “mundos imaginados” (R.14).