O trono sem povo é uma árvore sem raízes, é um1
edifício sem fundamentos. O vento que soprar mais forte
despregará a árvore da terra, e rolará o edifício nas areias.
Já se dizia na nossa Constituinte:4
“O trono não tem uma força própria; a de que goza
reside na ideia que dele formam os POVOS”.
E o povo, existe ele hoje?7
Não: o que temos é uma corrente ligeira que todos
desviam de seu alvo, e que lambe os pés de todos que
dominam. O que temos é uma voz enfraquecida, que se perde10
no espaço da terra brasileira. Mas um dia essa voz, quase
perdida, será um rugido de trovão, e a tempestade abalará os
dormentes da caverna. Um dia essa corrente humilde far-se-á13
rio caudal para arrebatar as insígnias falsas, e arrastar no
vórtice das espumas esse rochedo que parece afrontar os ventos
da democracia.16
Por isso desfalecer é um crime. A terra brasileira é a
mãe de nobres ideias, o alenta o valor de seus filhos Antêos.
(…)19
Na batalha a bandeira rota é a mais gloriosa, e o fumo
que a cresta fala dela ao patriotismo.
Ai de nós se o ceticismo nos arrebatasse a esperança22
porque a alma magnânima do povo não sofreria as ânsias
cruéis do cativeiro.
Esperemos.25
Em vez do governo de hoje, em vez do regime
pessoal, que as leis criaram, virá o puro governo
representativo; em vez da vontade de um só substituída à28
palavra sincera dos comícios virá a voz da praça pública; em
vez do imperialismo, teremos a democracia.
Esperemos.31
A regeneração social será completa. Há um pêndulo
que marca as eras das crises nacionais, e o Brasil está em crise.
Joaquim Nabuco. O povo e o trono. In: Leonardo Dantas Silva (Org.)
Nabuco e a República. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Ed.
Massagana, 1990, p. 9. Internet: <www.fundaj.gov.br>.
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto acima, assinale a opção correta.
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A Dados os sentidos do texto e as relações sintáticas de seu segundo período, a forma verbal “rolará”, em “rolará o edifício nas areias” (R.3), pode ser interpretada como cair ou como fazer cair.
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B A palavra “trono” está empregada no texto em referência, de forma genérica, a regime autoritário.
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C O pronome “isso”, em “Por isso” (R.17), retoma a ideia desenvolvida no último período do parágrafo anterior, a qual constitui a consequência do fato expresso na oração “desfalecer é um crime”.
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D A forma verbal “Esperemos”, à linha 25, denota esperança, mas não expectativa, ou seja, denota desejo de mudança, sem que se possa deduzir que haja a possibilidade de que ela ocorra.
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E Infere-se do texto que o “imperialismo” (R.30) a que se refere o autor consiste na prática política de expansão territorial e, principalmente, econômica adotada por alguns Estados para subjugar outros Estados.