As 101 crônicas de Comédias da Vida Privada, de1
Luis Fernando Verissimo, compõem um desses raros livros que
correspondem ao que diz sua orelha. Reproduzo, por não saber
dizer melhor: “O território imenso, opaco, denso e impreciso4
da classe média. Seus heróis anônimos, os grandes e os
pequenos gestos, a complicada engenharia familiar, as
fidelidades, as mesas de bar, as angústias, o trágico e o cômico7
combinados na estranha sinfonia do cotidiano, salas de jantar
onde são decididos destinos com a televisão ligada, vizinhos
barulhentos, enfim…”10
Só digo algo mais. Luis Fernando, não por escolha,
mas por vocação, é escritor de um gueto — o humorismo. Em
toda parte do mundo, o labéu, o rótulo humorista, continua13
sendo colocado em intelectuais como um sinal menor ou um
“à parte”. Nem adianta lembrar que símbolos maiores de
intelectuais na França são Molière e Rabelais; na Irlanda e16
Inglaterra, Swift e Shaw, e que o gênio ímpar da Espanha é
Cervantes. No Brasil, então, país que teima em ser
subdesenvolvido apesar de oitava economia do mundo,19
humorista é ator de peruadas, simpático, sim, divertido, sim,
mas deixa pra lá. (…)
Previno o leitor: ao dar, como eu, insopitáveis22
gargalhadas durante a leitura (e olha que é difícil rir sozinho)
de Comédias da Vida Privada, não esqueça que está diante
do Magnus opum de um escritor. Não se preocupe em como25
chamar ou em como chamam o livro: crônicas, contos,
reflexões, piadas, críticas. E não acredite na aparente
fragmentação. O livro é uno e denso. Ridente e reflexivo de28
ponta a ponta e pungente e metafísico inúmeras vezes.
Millôr Fernandes. A comédia da classe média. In: Apresentações.
Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 71-2 (com adaptações).
Assinale a opção correta a respeito das ideias desenvolvidas no texto acima.
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A No primeiro parágrafo do texto, o autor reproduz um trecho da orelha do livro Comédias da Vida Privada, escrita por ele, e informa só ter mais uma coisa a dizer sobre Luis Fernando Verissimo: “é escritor de um gueto — o humorismo”.
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B Millôr Fernandes comenta e critica a percepção, presente em “toda parte do mundo” (R.13), de que o intelectual e o humorista se diferenciam, desempenhando este uma atividade menos importante do que a daquele.
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C O autor do texto alerta o leitor para não acreditar na aparente fragmentação do livro Comédias da Vida Privada, visto que o mesmo julgamento é feito em relação a obras de humoristas franceses, como Molière e Rabelais.
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D No comentário sobre Comédias da Vida Privada, Millôr Fernandes explica que o humorismo levou Luis Fernando Verissimo a defender visões políticas e a criticar costumes sociais que acabaram por forçá-lo a viver em um gueto.
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E Millôr Fernandes critica a classe média por sua incapacidade de rir de si mesma e por não ler livros unos e densos como é a obra Comédias da Vida Privada.