CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2013
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Questão q4 de 2013

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Visita a Jean-Paul Sartre
Os estudantes do velho Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, do
Rio, querem levar uma peça de Sartre, Morts sans Sépulture, sem pagar os
direitos. O pedido vem às mãos de Roberto Assumpção, secretário da
embaixada, que lida com as coisas culturais. Ele escreve a Sartre e recebe
logo a resposta, marcando rendez-vous: meio-dia e meia, no apartamento do
escritor. Vou também, como penetra. (…)
Sartre mora na esquina da rue de l’Abbaye, num quarto andar
aonde se ascende por uma escada meio escura, em caracol. Esse solteirão de
45 anos vive com sua mãe, e tem um apartamento bem-arranjado. Eu
melhoraria de estilo se escrevesse como ele, nesse pequeno escritório cheio
de livros, com duas janelas dando para o largo: à esquerda, a torre da igreja,
à direita, o Deux Magots. (…)
À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que
fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da
Alsácia tem alguma coisa de camponês do Norte. É vermelho, tem a pele
grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam
sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está
falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho fixa um de nós,
formando um ângulo de 45 graus; mas parece que o esquerdo, que fixa o
diplomata, é que está com a razão. (…)
Estava escrevendo quando nos recebeu: explica-me que está
acabando seu estudo sobre Jean Genet. Tem em sua frente uma edição de
luxo de Notre-Dame-des-Fleurs. Automaticamente reparo nos dois livros
que tem sobre a mesa: um é Platão, outro de Mallarmé.
É claro que tem prazer em que os estudantes levem sua peça; faz
questão de escrever a eles uma carta, dando licença e agradecendo. Roberto
lhe fala sobre o interesse que sua obra desperta no Brasil. Já tem notícia
disso, e teve um convite de São Paulo para visitar nosso país. “Este ano foi
impossível, mas vou dar um jeito de ir no ano que vem.” Conta que o adido
cultural francês em São Paulo lhe prometeu mandar a tradução do ensaio de
um escritor brasileiro para publicar na Les Temps Modernes, a sua revista.
Não se lembra do nome do escritor.
Faz pergunta sobre nosso país. Diz que tem boa impressão dele
pelo que lhe contaram Camus, Barrault e outros amigos. Um povo que tem
caráter próprio e muita efervescência cultural. Não tem o ar de dizer
gentilezas e parece exprimir uma curiosidade sincera. Digo-lhe que, na
linguagem do Rio, “existencialismo” tem um sentido não muito austero e
lembra mais Chiquita Bacana do que Søren Kierkegaard. Ri: não é apenas
no Brasil, é no mundo; isso começou aqui no quartier e — nota — os
adversários fingem levar a sério essa legenda de “imoralismo” da doutrina.
Rubem Braga. Visita a Jean-Paul Sartre [crônica de 20/11/1950]. In: Retratos
parisienses. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013, 2.ª ed., p.115-7 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. O autor do texto, Rubem Braga, registra que o adido cultural francês em São Paulo teve conhecimento do problema relativo a direitos autorais e prometeu enviar uma cópia do processo traduzida para o francês.

  2. Rubem Braga informa que, como Jean-Paul Sartre foi evasivo durante boa parte da conversa, não foi possível saber com que interlocutor ele falava sobre seus trabalhos literários.

  3. O encontro dos dois brasileiros com Jean Paul-Sartre foi marcado com urgência em razão de um processo penal que, relativo a direitos autorais, envolvia estudantes do Rio de Janeiro e o escritor francês.

  4. O cronista brasileiro comenta que melhoraria seu estilo literário se escrevesse não apenas no ambiente do filósofo francês, mas também se consultasse os livros de Platão e de Mallarmé que estavam sobre a mesa de Jean-Paul Sartre no momento do encontro.