Lendo provas de um poema
Com Rubem Braga, certa vez,1
lia em provas Dois Parlamentos.
Na manhã ipanema e verão,
em volta do alto apartamento,4
sem que carniça houvesse perto,
sem explicação, todo um elenco
de urubus se pôs a rondar7
a cobertura, em voos pensos:
como se farejassem a morte
no texto que estávamos lendo10
e se a inodora morte escrita
não fosse esconjuro mas treno
João Cabral de Melo Neto. In: Museu
de tudo. Rio de Janeiro: José Olympio,
1975, p. 60 (com adaptações).
O urubu mobilizado
Durante as secas do Sertão, o urubu,1
de urubu livre, passa a funcionário.
O urubu não retira, pois prevendo cedo
que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,4
cala os serviços prestados e diplomas,
que o enquadrariam num melhor salário,
e vai acolitar os empreiteiros da seca,7
veterano, mas ainda com zelos de novato:
aviando com eutanásia o morto incerto,
ele, que no civil quer o morto claro.10
Embora mobilizado, nesse urubu em ação
reponta logo o perfeito profissional.
No ar compenetrado, curvo e conselheiro,13
no todo de guarda-chuva, na unção clerical,
com que age, embora em posto subalterno:
ele, um convicto profissional liberal.16
João Cabral de Melo Neto. In: Poesias
completas. Rio de Janeiro: Editora Sabiá,
1968, p. 12-3 (com adaptações).
Com relação aos textos acima — poemas de João Cabral de Melo Neto —, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
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Depreende-se do primeiro texto que o poeta João Cabral de Melo Neto e o cronista Rubem Braga liam juntos as provas da obra Dois Parlamentos, porque ambos eram personagens desse poema.
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No segundo texto, ao informar que o urubu é “funcionário” (v.2), “veterano” (v.8) e “convicto profissional liberal” (v.16), o poeta quer assim transmitir a rotina, a experiência e a autonomia do urubu no período das secas do sertão, quando a morte dos animais, por fome e sede, aumenta a oferta da carniça de que se alimenta.
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No primeiro texto, o poeta demonstra apreensão ao perceber “um elenco de urubus” (v.6-7) a circular sobre a cobertura de um prédio e receia que as aves estejam indicando a iminente morte de um dos escritores, como em um presságio.
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Ao afirmar, no segundo texto, que o urubu “vai acolitar os empreiteiros da seca” (v.7), o poeta ironiza aqueles que lucram com a longa estiagem sertaneja, comparando-os à ave que, no mesmo período, encontra farta comida.