Texto I
A civilização deu uma importância extraordinária à1
escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só
pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista,
porém, que lhe há ao lado, mais antiga, mais básica, uma4
expressão oral.
A rigor, a linguagem escrita não passa de um
sucedâneo, de um ersatz da fala. Esta é que abrange a7
comunicação linguística em sua totalidade, pressupondo, além
da significação dos vocábulos e das frases, a entoação, os
elementos subsidiários da mímica, incluindo-se aí o jogo10
fisionômico. Por isso, para bem se compreender a natureza e
o funcionamento da linguagem humana, é preciso partir da
apreciação da linguagem oral e examinar, em seguida, a escrita13
como uma espécie de linguagem mutilada, cuja eficiência
depende da maneira por que conseguimos obviar à falta
inevitável de determinados elementos expressivos.16
Joaquim Mattoso Câmara Jr. Manual de expressão oral
e escrita. 27.ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
Texto II
A palavra falada é imediata, local e geral. Quando1
falamos, falamos para ser ouvidos imediatamente, com quem
está ali ao pé de nós, e de modo a que sejamos facilmente
entendidos dele, que sabemos quem é, ou calculamos que4
sabemos, e que pode ser toda a gente, devendo nós pois falar
como se fosse qualquer. A palavra escrita é mediata, longínqua
e particular. Quando escrevemos, dirigimo-nos a quem não nos7
vai ouvir, que é ler, logo; a quem não está ao pé de nós; a quem
poderá entender-nos e não a quem tem que entender-nos, tendo
nós pois primeiro que o entender a ele.10
Em resumo, a palavra falada é um fenômeno social,
a escrita um fenômeno cultural; a palavra falada um fenômeno
democrático, a escrita um aristocrático. São diferentes em13
substância: são pois forçosamente diferentes os seus
respectivos meios e fins. (…)
Na palavra falada, temos que ser, em absoluto, do16
nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos
arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não podemos
pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio.19
A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a
ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se
subordina a quem a escolhe.22
Fernando Pessoa. A língua portuguesa. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 56-7 e 72.
No que se refere aos sentidos dos textos I e II, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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De acordo com o texto I, a falta de determinados elementos expressivos na linguagem torna a escrita sempre ineficiente, em menor ou maior grau, se comparada à linguagem falada.
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Depreende-se das ideias desenvolvidas nos textos I e II que seus autores divergem a respeito do que faz da fala e da escrita instâncias diversas: Mattoso Câmara atribui a diferença à natureza delas, e Pessoa, aos meios e fins.
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Conclui-se do desenvolvimento das ideias do texto II que a “palavra falada” subordina o falante ao seu interlocutor, ao passo que a “palavra escrita” confere ao escritor liberdade de expressão.
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Do trecho do texto II “Não podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio” (R.18-19) infere-se que Fernando Pessoa associa pensamento e linguagem.