Entre os anos 70 e começos da década seguinte,1
vigorou o que se chamava amável e ironicamente a poesia do
desbunde. Dela pode-se dizer que reaclimatou, em tom menor,
o ideário modernista. Então revalorizados, o coloquial e o4
poema-piada deixavam de simplesmente se opor à linguagem
empertigada contra a qual os modernistas haviam lutado.
Punham-se agora a serviço da territorialidade privada.7
Enquanto, no primeiro modernismo, aqueles eram meios para
a redescoberta procurada do país, agora se tornavam
instrumentos domésticos. O país estava ocupado. O regime10
militar, em seu apogeu, assegurava o milagre das bolsas e o
sigilo das torturas. Tratava-se para os jovens literati de salvar
a casa; se não toda, o quarto de fundos. Claro que não13
pensavam assim. Quando faziam declarações, apresentavam
como seus inimigos os poetas experimentais e a poesia de João
Cabral. Os concretos e Cabral seriam, para eles, os homólogos16
contemporâneos de Coelho Neto e Olavo Bilac.
Tendo por centro a experiência privada, a poesia do
desbunde mantinha a glorificação do eu: estimava-o como19
jovem e o estimulava a assim se manter. Regra básica: alertar
contra todos os modos de engajamento na seriedade. O
trabalho, doença da sociedade burguesa, era um infame criador22
de corpos flácidos e mentes amorfas.
Luiz Costa Lima. Abstração e visualidade. In: Intervenções.
São Paulo: EDUSP, 2002, p. 135 (com adaptações).
Em relação ao texto acima, julgue (C ou E) os próximos itens.
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De acordo com o autor, os poetas do desbunde consideravam que os poetas experimentais e João Cabral de Melo Neto compunham uma nova vertente de reação ao Modernismo, liderada por escritores como Coelho Neto e Olavo Bilac.
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Conforme o texto, a poesia do desbunde caracterizou-se pela glorificação do ego, pelo culto à juventude e pela crítica ao valor do trabalho na sociedade.
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Segundo o autor, a poesia do desbunde atualizou propostas do Modernismo, muito embora as obras não tivessem a mesma grandeza do movimento artístico dos anos 20.
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A poesia do desbunde, valendo-se de “instrumentos domésticos” (R.10), inspirou-se em retórica antimilitarista e de crítica ao regime político que marcou o ideário modernista.