Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira1
— como naquele momento em que ontem de manhã estava
sentada à mesa do café — quanto a mim mesma, sempre
conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De4
algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se
fosse — uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava
como uma invenção. (…)
Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e correta,7
era uma réplica bonita. Pois tudo isso é o que provavelmente
me torna generosa e bonita. Basta o olhar de um homem10
experimentado para que ele avalie que eis uma mulher de
generosidade e graça, e que não dá trabalho, e que não rói um
homem: mulher que sorri e ri.13
Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não
apenas superficialmente. Eu era a imagem do que não era, e
essa imagem do não ser me cumulava toda: um dos modos mais16
fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então
“não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo
menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”,19
tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então
vivia com algum pré-fervor, o que era o meu “mal”.
Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro:
Editora do Autor, 1964, p. 30-1 (com adaptações).
Em relação ao texto I acima, julgue (C ou E) os itens seguintes.
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Em língua portuguesa, as expressões “estar entre aspas” e “viver entre parênteses” equivalem-se, pois ambas significam um estado de suspensão ou de espera diante de acontecimentos.
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A autora do texto estabelece forte oposição entre “ser” e “não-ser”, optando pelo último, uma vez que “ser” poderia aproximá-la de uma forma aparente e mentirosa para a qual não se encontra preparada.
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A sentença “Eu era a imagem do que não era” (R.15) expressa um paradoxo ou oximoro.
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Entre as funções das aspas, está a de salientar o sentido figurado de uma expressão, isolando na frase o termo desejado. Clarice Lispector se vale desse recurso ao explicar que sempre conservou “uma aspa à esquerda e outra à direita de mim” (R.4), além de se declarar satisfeita em projetar “Essa imagem de mim entre aspas” (R.14).