CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2014
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Questão q11 de 2014

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Texto I:
Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira1
— como naquele momento em que ontem de manhã estava
sentada à mesa do café — quanto a mim mesma, sempre
conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De4
algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se
fosse — uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava
como uma invenção. (…)
Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e correta,7
era uma réplica bonita. Pois tudo isso é o que provavelmente
me torna generosa e bonita. Basta o olhar de um homem10
experimentado para que ele avalie que eis uma mulher de
generosidade e graça, e que não dá trabalho, e que não rói um
homem: mulher que sorri e ri.13
Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não
apenas superficialmente. Eu era a imagem do que não era, e
essa imagem do não ser me cumulava toda: um dos modos mais16
fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então
“não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo
menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”,19
tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então
vivia com algum pré-fervor, o que era o meu “mal”.
Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro:
Editora do Autor, 1964, p. 30-1 (com adaptações).

Texto II:
Por mais que se escoem1
coisas para a lata do lixo,
clipes, cãibras, suores,
restos do dia prolixo,4
por mais que a mesa imponha
o frio irrevogável do aço,
combatendo o que em mim contenha7
a linha flexível de um abraço,
sei que um murmúrio clandestino
circula entre o rio de meus ossos:10
janelas para um mar-abrigo
de marasmos e destroços.
Na linha anônima do verso13
aposto no oposto de meu sim,
apago o nome e a memória
num Antônio antônimo de mim.16
Antonio Carlos Secchin. Autoria. In: Todos os ventos.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 61-2.

Em relação aos textos I e II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. Tal como o eu lírico do poema (texto II), a narradora do texto I está envolvida com a autoria do texto literário, como evidencia o trecho “‘não ser’ era a minha maior aproximação da verdade” (R.18).

  2. Há comparação entre o trecho “eu pelo menos tinha o ‘não’, tinha o meu oposto”, nas linhas 19 e 20 do texto I, e o verso 14 do texto II: “aposto no oposto de meu sim”; verifica-se que ambos os autores exploram aspectos e contingências de uma dimensão contrária ao ser ou a ele contraditória.

  3. Existe semelhança temática entre o que afirma Clarice Lispector em “pelo menos eu tinha o lado avesso” (texto I/R.18-19) e Antonio Carlos Secchin no verso “num Antônio antônimo de mim” (texto II/v.16): ambas as citações tratam da oposição ao eu.

  4. Na comparação entre os textos I e II, percebe-se que o poeta descarta “clipes, cãibras, suores, / restos do dia prolixo” (v.3 e v.4), ao passo que a ficcionista conserva “uma aspa à esquerda e outra à direita” (R.4), o que demonstra que, com relação a bens materiais, os dois autores expressam atitudes diferentes.