Uma das razões por que Rosalina não o [José1
Feliciano] mandou embora foi exatamente o que disse José
Feliciano: a gente carece de ouvir voz humana, pra sair das
sombras. Um homem não é só um lago de silêncio, necessita de4
ouvir a música da fala humana. Se a gente não cuida muito do
que dizem as palavras, se não cheira o seu sumo, ouve apenas,
a fala humana é rude e bárbara, cheia de ruídos estranhos, de7
altos e baixos. Atente agora não só com os ouvidos bem
abertos, ouça com o corpo, com a barriga se possível, com o
coração, e veja, ouça a doce modulação do canto. Só o canto,10
a música.
Rosalina ouvia José Feliciano. A voz de José
Feliciano veio dar vida ao sobrado, encheu de música o oco do13
casarão, afugentou para longe as sombras pesadas em que ela,
sem dar muita conta, vivia. Agora ela pensava: como foi
possível viver tanto tempo sem ouvir voz humana, só os16
grunhidos, os gestos às vezes desesperados de Quiquina
quando ela não conseguia se fazer entender? Ouvindo a própria
voz. Mas a gente nunca pega no ar, com o ouvido, a própria19
voz. É no corpo, no porão da alma que ela ressoa como um
rumor de chão. Veja-se o disco, a fala do próprio gravada,
ninguém se reconhece.22
De repente, acordada pelo canto, viu a solidão que era
a sua vida. Como foi possível viver tanto tempo assim? Como,
meu Deus? Ela estava virando coisa, se enterrava no oco do25
escuro, ela e o mundo uma coisa só. E dentro dela rugia a
seiva, a força que através de verdes fusos dá vida à flora e à
fauna, e torna o mundo esta coisa fechada, impenetrável ao28
puro espírito do homem.
E a voz, que a princípio chegava a doer-lhe nos
ouvidos, alta demais, acordou-a para a claridade, para a luz das31
coisas, para a vida.
Autran Dourado. Ópera dos mortos. Cap. 5. Os dentes da
engrenagem. 9.ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 73-4.
Com referência a aspectos linguísticos do texto acima, julgue (C ou E) os itens subsecutivos.
-
No texto, o autor anuncia e justifica o encantamento da personagem Rosalina com José Feliciano, cuja voz, que soava estridente de início para ela, proporcionou-lhe uma nova percepção de sua vida.
-
No trecho “Se a gente não cuida (…) de altos e baixos” (R.5-8), o emprego de um ponto e vírgula após o vocábulo “apenas”, no lugar da vírgula, marcaria o final do primeiro período e o início da oração que se segue, mantendo-se a correção gramatical e favorecendo-se a compreensão do trecho.
-
Nos trechos “E dentro dela rugia a seiva, a força que através de verdes fusos dá vida à flora e à fauna” (R.26-28) e “E a voz, que a princípio chegava a doer-lhe nos ouvidos, alta demais” (R.30-31), os pronomes relativos “que” introduzem orações de naturezas diferentes, sendo a primeira de caráter restritivo, e a segunda, de caráter explicativo.
-
Em “Como foi possível viver tanto tempo assim?” (R.24), o termo “assim”, empregado como recurso de ênfase, poderia ser retirado do trecho, sem prejuízo para o contexto.