Improviso do mal da América
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Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.1
Campeio na vida o jacumã que mude a direção destas igaras fatigadas
E faça tudo ir indo de rodada mansamente
Ao mesmo rolar de rios das inspirações e das pesquisas…4
Não acho nada, quasi nada, e meus ouvidos vão escutar amorosos
Outras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.
Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.7
Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus,
E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras.
Vão chegando italianos didáticos e nobres;10
Vai chegando a falação barbuda de Unamuno
Emigrada pro quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica;
Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade…13
Trazem vodca no sapicuá de veludo,
Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,
Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.16
E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,
As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,
Os homens destilam vícios aldeões na catinga;19
E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,
Tudo calou de supetão, e no ar amulegado da noite que sua…
– Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente!22
São coros, coros ucranianos batidos ou místicos,
Home… Sweet home… Que sejam felizes aqui!
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Mário de Andrade. De pauliceia desvairada a café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro S.A., p. 209-10.
A respeito do excerto acima, extraído do poema Improviso do mal da América, de Mário de Andrade, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
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Na descrição de alguns hábitos dos estrangeiros que chegam a São Paulo, predomina a perspectiva da cultura brasileira, como se verifica principalmente nos versos “Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,/Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado” (v.15 e v.16).
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No primeiro verso do excerto, o eu lírico associa a percepção de se sentir branco ao pertencimento de realidades desconhecidas.
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Os versos de 1 a 9 expressam a inanição do eu lírico resultante do desejo de “tudo ir indo de rodada mansamente” (v.3).
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A hostilidade do eu lírico com os inúmeros migrantes que chegam a São Paulo tem como contraponto a acolhida a todos eles no “quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica” (v.12).