CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2014
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Questão q1 de 2014

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Improviso do mal da América
[…]
Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.1
Campeio na vida o jacumã que mude a direção destas igaras fatigadas
E faça tudo ir indo de rodada mansamente
Ao mesmo rolar de rios das inspirações e das pesquisas…4
Não acho nada, quasi nada, e meus ouvidos vão escutar amorosos
Outras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.
Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.7
Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus,
E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras.
Vão chegando italianos didáticos e nobres;10
Vai chegando a falação barbuda de Unamuno
Emigrada pro quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica;
Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade…13
Trazem vodca no sapicuá de veludo,
Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,
Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.16
E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,
As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,
Os homens destilam vícios aldeões na catinga;19
E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,
Tudo calou de supetão, e no ar amulegado da noite que sua…
– Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente!22
São coros, coros ucranianos batidos ou místicos,
Home… Sweet home… Que sejam felizes aqui!
[…]
Mário de Andrade. De pauliceia desvairada a café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro S.A., p. 209-10.

A respeito do excerto acima, extraído do poema Improviso do mal da América, de Mário de Andrade, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. Na descrição de alguns hábitos dos estrangeiros que chegam a São Paulo, predomina a perspectiva da cultura brasileira, como se verifica principalmente nos versos “Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,/Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado” (v.15 e v.16).

  2. No primeiro verso do excerto, o eu lírico associa a percepção de se sentir branco ao pertencimento de realidades desconhecidas.

  3. Os versos de 1 a 9 expressam a inanição do eu lírico resultante do desejo de “tudo ir indo de rodada mansamente” (v.3).

  4. A hostilidade do eu lírico com os inúmeros migrantes que chegam a São Paulo tem como contraponto a acolhida a todos eles no “quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica” (v.12).