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LÍNGUA PORTUGUESA 2014
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Questão q3 de 2014

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Que me perdoem os devotos machadianos, eu prefiro1
Euclides da Cunha e Lima Barreto, com todos os defeitos que
ambos possam ter, a Machado de Assis, com todas as suas
qualidades. E, até onde pude entender, Millôr Fernandes tem4
opinião parecida com a minha. Tanto assim que, segundo
afirmou, não incluiria qualquer dos livros de Machado de Assis
entre os dez maiores romances brasileiros.7
A meu ver, ao falar assim, Millôr Fernandes levou em
conta apenas livros como Dom Casmurro, em que, na minha
opinião, Machado incorre naquela miopia contra a qual o10
músico Jayme Ovalle reclamava. Mas esqueceu de Quincas
Borba, que inclui Machado de Assis na linhagem cervantina da
literatura e em que a insânia de Rubião se aproxima da insânia13
do Cavaleiro da Triste Figura.
Mas, talvez por causa da ironia sem compaixão de
Machado de Assis, a loucura de Rubião gira somente em torno16
de sua pessoa, jamais partindo ele para qualquer ação no
sentido de corrigir “os desconcertos do mundo” — como
acontecia com o cavaleiro manchego. De modo que o19
personagem mais generosamente quixotesco da literatura
brasileira não é Rubião, é Policarpo Quaresma. Lima Barreto
é nosso escritor mais puramente humorístico, tomada a palavra22
em seu verdadeiro sentido, que inclui, ao lado do riso, a
compaixão, que a ironia de Machado de Assis ou impede ou mancha.
Alguns escritores que desprezam o Brasil e seu povo25
costumam usar Policarpo Quaresma como pretexto para
escarnecer de ambos. Pensam, talvez, que Lima Barreto era um
deles. Esquecem que, em seu romance, o grande escritor28
carioca ri, antes de tudo, de si mesmo. E, sobretudo, não veem
tais escritores que, se a realidade brutal e mesquinha (inclusive
a da política) desmente e destrói, a cada instante, as ações31
generosas de Policarpo Quaresma, a pureza de seu sonho
permanece intocada até a morte, o que o coloca muito acima
dos poderosos e “realistas” que o cercam.34
Ariano Suassuna. In: Cadernos de literatura brasileira – Millôr Fernandes,
n.o 15, Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2003, p. 18-9 (com adaptações).

Acerca das ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. No trecho que inicia o terceiro parágrafo, mesmo que presente o advérbio “talvez” (R.15), que exigiria o emprego do modo subjuntivo, o autor do texto optou pelo emprego da forma verbal no indicativo (“gira”), privilegiando, assim, a assertividade de seu discurso, conforme descrito na gramática normativa a respeito desse modo verbal.

  2. Seria mantida a correção gramatical e aprimorada a precisão do texto, se o trecho em que o autor aponta seus escritores preferidos (R.1-4) estivesse escrito da seguinte forma: prefiro Euclides da Cunha e Lima Barreto, apesar dos defeitos de suas obras, do que Machado de Assis, cujas qualidades das suas obras são inúmeras.

  3. Com o emprego da expressão “na linhagem cervantina” (R.12), Ariano Suassuna explicita um parâmetro por ele adotado, para opinar sobre romances e escritores, e que é reiterado pelo emprego dos seguintes termos: “Cavaleiro da Triste Figura” (R.14), “cavaleiro manchego” (R.19), “quixotesco” (R.20).

  4. O autor do texto postula que o humor, na acepção por ele indicada, é qualidade distintiva de uma narrativa literária e incompatível com a ironia e o sarcasmo, recursos de uso frequente na literatura brasileira, especialmente entre os escritores com visão antinacionalista, referidos no texto como “escritores que desprezam o Brasil e seu povo” (R.25).