A correspondência de Mário de Andrade é uma das1
fontes sobre os sentimentos que abateram a intelectualidade
paulista, sobretudo no trauma de 1932, quando São Paulo foi
invadido por tropas federais, que ocuparam a capital e se4
alastraram pelo interior (“Disputam esfomeadamente a presa
sublime, e desgraçadamente está certo, essa é a lei dos homens.
Dos homens selvagens.”, desabafa Mário em carta a Paulo7
Duarte). As consequências dos expedientes da ditadura
abateram um estado cujos habitantes eram considerados por
Mário como “diferentes mesmo”. O que se fizesse naquele10
estado, apostava, se irradiaria como política e como orientação
pelo país, uma reedição, por via da cultura, do velho slogan:
“São Paulo, a locomotiva puxando os vagões”.13
“Minha pátria é São Paulo. E isso não me desagrada.”,
confessa o poeta paulista a Drummond no calor de um conflito
que os encontrou em lados opostos. Drummond já estava na16
chefia de gabinete do secretário de Interior e Justiça de Minas
Gerais, aliado ao poder central naquele momento, e Mário era
partidário da causa da Revolução Constitucionalista de 1932.19
O paulista sabia que estava acometido de um estado
extraordinário de mobilização, frustração e abatimento, como
revela o seguinte trecho de carta a Drummond.22
“Você, Carlos, perdoe um ser descalibrado. Este é o
castigo de viver sempre apaixonadamente a toda hora e em
qualquer minuto, que é o sentido da minha vida. No momento,25
eu faria tudo, daria tudo pra São Paulo se separar do Brasil.
Não meço consequências, não tenho doutrina, apenas continuo
entregue à unanimidade, apaixonadamente entregue…”28
Helena Bomeny. Um poeta na política – Mário de Andrade, paixão e
compromisso. 1.ª ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012, p. 71-2 (com adaptações).
No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os próximos itens.
-
Depreende-se das ideias do texto que a criação do slogan “São Paulo, a locomotiva puxando os vagões” foi motivada pela atitude bairrista da intelectualidade paulista, como demonstra o predicativo ‘diferentes mesmo’ (R.10) atribuído aos paulistas, para ressaltar-lhes a superioridade em relação à população dos outros estados brasileiros.
-
No excerto entre parênteses (R.5-8), em que predomina a função poética da linguagem, é exemplo de construção sintática típica da linguagem coloquial: ‘e desgraçadamente está certo, essa é a lei dos homens.’
-
Com base na prescrição gramatical, pode-se classificar a partícula “se”, no trecho “se irradiaria como política e como orientação pelo país” (R.11-12), tanto como apassivadora quanto como reflexiva; no entanto, ao se considerar a relação entre esse segmento e a expressão metafórica ‘a locomotiva puxando os vagões’ (R.13), a opção recai na classificação do verbo como pronominal.
-
Na linha 26, a forma preposicional contraída ‘pra’ introduz um dos complementos da forma verbal ‘daria’.