Distingo, no português histórico, dois períodos1
principais: o português antigo, que se escreveu até os primeiros
anos do século XVI, e o português moderno. Robustecida e
enriquecida de expressões novas, a linguagem usada nas4
crônicas desse segundo período, que relatam os
descobrimentos em África e Ásia e os feitos das armas
lusitanas no Oriente, culmina no apuro e no gosto do português7
moderno d’Os Lusíadas (1572). É o século da Renascença
literária, e tudo quanto ao depois se escreve é a continuação da
linguagem desse período. E como não ficou estacionário o10
português moderno, denominou-se quinhentista, seiscentista,
setecentista a linguagem própria a cada era. Reservo a
denominação de português hodierno para as mudanças13
características do falar atual criadas ou fixadas recentemente,
ou recebidas do século XIX, ou que por ventura remontam ao
século XVIII. 16
Limites entre os diversos períodos não podem ser
traçados com rigor. Ignoram-se a data ou o momento exato do
aparecimento de qualquer alteração linguística. Neste ponto,19
nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendência
conservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem
falada. Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucos22
indivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-se
o seu uso no falar do povo. A gente culta e de fina casta
repele-a, a princípio, mas, com o tempo, sucumbe ao contágio.25
Imita o vulgo, se não escrevendo com meditação, em todo o
caso no trato familiar e falando espontaneamente. Decorrem
muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendo28
razão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitar
a mudança também. Tal é, a meu ver, a explicação não
somente de fatos isolados, mas ainda do aparecimento de todo31
o português moderno.
Não é de crer que poucos anos depois de 1500, quase
que bruscamente e sem influxo de idioma estranho, cessassem34
em Portugal inveterados hábitos de falar e se trocasse o
português antigo em português moderno. Nem podemos
atribuir a escritores, por muito engenho artístico que tivessem,37
aptidões e autoridade para reformarem, a seu sabor, o idioma
pátrio e sua gramática. Consistiria a sua obra antes em elevar
à categoria de linguagem literária o falar comum,40
principalmente o das pessoas educadas, tornando-o mais
elegante e desterrando locuções que lhe dessem aspecto menos
nobre. Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da prática43
recebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessem
de fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a
utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo ar46
de gravidade e acima do vulgar.
O século XVI, descerradas as cortinas que encobriam
o espetáculo de novos mundos, e dada a facilidade de pôr a49
leitura das obras literárias ao alcance de todos, graças ao
desenvolvimento da imprensa, devia fazer cessar a superstição
do passado, mostrar o caminho do futuro e ditar a necessidade52
de se exprimirem os escritores em linguagem que todos
entendessem. Resolveram-se a fazê-lo. Serviram-se da
linguagem viva de fato, como o demonstram os diálogos das55
comédias de então, que reproduzem o falar tradicional da gente
do povo. Trariam estes diálogos os característicos gramaticais
do português antigo, se fosse este ainda o idioma corrente.58
M. Said Ali. Prólogo da Lexeologia do português histórico, 1.ª ed. 1921.
In: Gramática histórica da língua portuguesa. 8.ª ed. rev. e atual. por
Mário Eduardo Viaro. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasília, DF:
Editora Universidade de Brasília, 2001, p. 17-8 (com adaptações).
Cada um dos itens subsequentes apresenta uma proposta de reescrita de trecho do texto de M. Said Ali, que deve ser julgada certa se estiver devidamente pontuada e gramaticalmente correta e mantiver as informações do texto, ou errada, em caso contrário.
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“Decorrem muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendo razão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitar a mudança também.” (R. 27 a 30): Passa-se muito tempo, até que a linguagem literária, finalmente, por não encontrar motivo para repelir aquilo que todas as pessoas falam, resolve anuir à alteração também.
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“Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da prática recebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessem de fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo ar de gravidade e acima do vulgar.” (R. 43 a 47): Porém os escritores antigos furtavam-se a distanciar-se do uso adquirido de seus avós e, uma vez que diversas transigências se tivesse de fazer à prática a fim de serem compreendidos, inclinavam-se mais a empregar meios factícios que imprimissem ao seu modo de escrever alguma mostra de sobriedade e superior ao popular.
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“Neste ponto, nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendência conservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem falada.” (R. 19 a 22): A linguagem escrita nesse aspecto jamais será cópia exata àquilo que ocorre na linguagem oral, por sua propensão tradicionalista.
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“Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucos indivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-se o seu uso no falar do povo.” (R. 22 a 24): A novidade aparece, criada, talvez, por uma ou algumas pessoas; se elas tem a sorte de satisfazer o povo, não demora a propagar-se a utilização na fala.