CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2015
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Questão q13 de 2015

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

No modesto apartamento em que mora na rua Conde1
de Bonfim, Graciliano Ramos mostrou-me alguns originais dos
seus trabalhos. Via de regra, escreve em papel sem pautas, de
um só golpe, ao calor da composição. A forma definitiva vem4
depois. Emenda muito. E até mesmo quando passa a limpo,
com sua letra explicativa de escrevente de cartório, corta muita
coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes risca7
linhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta de
uma igualdade assombrosa, como feito à régua.
Graciliano guarda os originais dos livros já10
publicados. Assim pude verificar um curioso detalhe da feitura
de Vidas Secas. Os capítulos, datados, indicaram-me a
ausência de seguimento na elaboração da narrativa. “Baleia”,13
o nono capítulo, foi o primeiro a ser escrito, em 4 de maio de
1937. Um mês e pouco depois, precisamente no dia 18 de
junho, escreveu o quarto capítulo, “Sinha Vitória”. E assim16
todo o livro, que não obedeceu a nenhum plano antecipado.
— Escrevi a história de um cachorro de meu avô —
conta o romancista, cigarro Selma com ponta de cortiça entre19
os dedos queimados de fumo. — Os episódios foram-se
amontoando. O livro foi crescendo. E assim arrumei Vidas
Secas, que pensei em chamar “O mundo coberto de penas”,22
título de um dos capítulos do livro.
A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na
sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso. 25
— Caetés é uma história de Palmeira dos Índios. São
Bernardo se passa em Viçosa. Angústia tem um pouco do
Rio, um pouco de Maceió e muito de mim mesmo. Vidas28
Secas são cenas da vida de Buíque [Pernambuco].
Todos esses romances exigiram do autor um longo e
penoso trabalho de composição.31
— Não sou como José Américo — disse —, que
primeiro escreve na cabeça e depois transporta o livro para o
papel. A obra de criação, para mim, é quase sempre imprevista.34
E espontânea. Refaço tudo, depois. Escrever dá muito trabalho.
A gente muitas vezes não sabe o que vai fazer. Sai tudo diverso
do que se imaginou.37
Francisco de Assis Barbosa. Graciliano Ramos, aos cinquenta
anos. Reportagem biográfica. In: jornal Diretrizes, Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca Nacional RJ, 1942. Apud: Ieda Lebensztayn
e Thiago Mio Salla (Orgs.). Conversas – Graciliano Ramos. 3.ª ed.
R i o d e J a n e i r o : R e c o r d , 2 0 1 4 , p . 1 1 9 – 2 0 .

A respeito da linguagem e do vocabulário empregados no texto anterior, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. No terceiro parágrafo, o repórter abandona a narrativa e, sem intervir, reproduz, em discurso direto, o relato de Graciliano Ramos acerca da produção de Vidas Secas.

  2. Embora contenha trechos de fala, o texto está isento de coloquialismo.

  3. No primeiro parágrafo, o emprego, em sentido figurado, do substantivo “calor” (R.4) e da forma verbal “morrem” (R.8) contribuiu para a expressividade da linguagem dos segmentos em que esses vocábulos se inserem.

  4. Depreende-se que a qualidade de “explicativa” (R.6), atribuída à letra de Graciliano Ramos pelo autor do texto, foi empregada com o sentido de clara, legível, inteligível.