No modesto apartamento em que mora na rua Conde1
de Bonfim, Graciliano Ramos mostrou-me alguns originais dos
seus trabalhos. Via de regra, escreve em papel sem pautas, de
um só golpe, ao calor da composição. A forma definitiva vem4
depois. Emenda muito. E até mesmo quando passa a limpo,
com sua letra explicativa de escrevente de cartório, corta muita
coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes risca7
linhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta de
uma igualdade assombrosa, como feito à régua.
Graciliano guarda os originais dos livros já10
publicados. Assim pude verificar um curioso detalhe da feitura
de Vidas Secas. Os capítulos, datados, indicaram-me a
ausência de seguimento na elaboração da narrativa. “Baleia”,13
o nono capítulo, foi o primeiro a ser escrito, em 4 de maio de
1937. Um mês e pouco depois, precisamente no dia 18 de
junho, escreveu o quarto capítulo, “Sinha Vitória”. E assim16
todo o livro, que não obedeceu a nenhum plano antecipado.
— Escrevi a história de um cachorro de meu avô —
conta o romancista, cigarro Selma com ponta de cortiça entre19
os dedos queimados de fumo. — Os episódios foram-se
amontoando. O livro foi crescendo. E assim arrumei Vidas
Secas, que pensei em chamar “O mundo coberto de penas”,22
título de um dos capítulos do livro.
A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na
sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso. 25
— Caetés é uma história de Palmeira dos Índios. São
Bernardo se passa em Viçosa. Angústia tem um pouco do
Rio, um pouco de Maceió e muito de mim mesmo. Vidas28
Secas são cenas da vida de Buíque [Pernambuco].
Todos esses romances exigiram do autor um longo e
penoso trabalho de composição.31
— Não sou como José Américo — disse —, que
primeiro escreve na cabeça e depois transporta o livro para o
papel. A obra de criação, para mim, é quase sempre imprevista.34
E espontânea. Refaço tudo, depois. Escrever dá muito trabalho.
A gente muitas vezes não sabe o que vai fazer. Sai tudo diverso
do que se imaginou.37
Francisco de Assis Barbosa. Graciliano Ramos, aos cinquenta
anos. Reportagem biográfica. In: jornal Diretrizes, Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca Nacional RJ, 1942. Apud: Ieda Lebensztayn
e Thiago Mio Salla (Orgs.). Conversas – Graciliano Ramos. 3.ª ed.
R i o d e J a n e i r o : R e c o r d , 2 0 1 4 , p . 1 1 9 – 2 0 .
Julgue (C ou E) os próximos itens, a propósito das ideias e de aspectos morfossintáticos do texto de Francisco de Assis Barbosa.
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Depreende-se do texto que poucas vezes Graciliano Ramos escreveu de chofre, mas quando o fez, reescreveu tudo depois, ao passar a limpo, e é por isso que, para ele, escrever era muito trabalhoso.
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As informações e a correção gramatical do texto seriam preservadas, caso a conjunção aditiva “E” (R. 5 e 16) fosse grafada em minúscula; o ponto final que a antecede fosse substituído por vírgula; e, apenas na ocorrência da linha 5, essa conjunção fosse seguida de vírgula.
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A supressão da vírgula empregada logo após “livro” (R.17) atenderia às normas gramaticais, porém violaria a coerência do texto.
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O trecho “A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso.” (R. 24 e 25) poderia ser reescrito, sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, da seguinte forma: Está sempre presente na obra de Graciliano Ramos aquilo que, na sua vida, é mais humano e doloroso.