CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2015
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Questão q4 de 2015

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Num carro, a caminho do Alto da Boa Vista, sigo1
com alguns jovens — alguns extremamente jovens — que se
embriagam e rompem ampolas de Kelene, em cujo rótulo leio
anestesiante. Sim, é fértil em recursos essa mocidade, mas do4
que precisamente procura ela se anestesiar? Nenhum deles
sofre de algum mal profundo — e, no entanto, esse mal pior de
não sofrer de mal nenhum… — e são hábeis e versados nessas7
coisas de éter e entorpecentes, pronunciando esse nome —
Kelene — com familiaridade, nome sem dúvida mais que usual
nos hospitais, mas que ouço pela primeira vez e onde julgo10
distinguir inquietas ressonâncias, sombrias previsões, o não sei
que tom amputado e doloroso, que reflete salas de hospitais,
asilos de alienados e antros escuros de vícios, todos os lugares13
enfim onde a alma impaciente pode passear sem arroubos
finais seus gritos destruidores. Kelene, mesmo inocente, tem,
no frio do seu jato efêmero e cristalino, toda uma melodia16
secreta de delírios fúnebres, alvorecer em êxtase e
desabrochamento de deliquescências reprimidas. E o que me
espanta é que esses jovens moderados, de atitudes e costumes19
mais que burgueses, a isto se atirem com gritos de prazer e
estremecimentos animais: como que da sombra alguma coisa
mais primitiva e mais antiga do que o próprio homem acorda22
em suas faces necrosadas o gosto do imundo.
Lúcio Cardoso. Diário completo. Rio de
Janeiro: INL, 1970, p. 194-5 (com adaptações).

Com base nas ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. Ao mencionar que o produto Kelene provoca “toda uma melodia secreta de delírios fúnebres” (R. 16 e 17) e “alvorecer em êxtase” (R.17), o narrador salienta sensações paradoxais relacionadas à morte e à vida, respectivamente.

  2. O narrador informa que o produto Kelene raramente é utilizado em tratamento psiquiátrico.

  3. O texto evoca o estranhamento do narrador em relação a jovens que não teriam qualquer razão perceptível para usar Kelene, bem como ao fato de que nenhum dos jovens ofereceu-lhe o anestesiante.

  4. No texto, não há qualquer evidência de que o narrador, possivelmente mais idoso que as demais pessoas que o acompanham, seja usuário do produto descrito.