Nestes quatrocentos anos de colonização literária,1
recebemos a influência de muitos países. Sempre tentamos
reproduzir, com todas as minudências, a língua, as ideias, a
vida de outras terras. Não sei donde vem esse medo que temos4
de sermos nós mesmos. Queremos que nos tomem por outros.
(…)
Na literatura de ficção é que a falta de caráter dos7
brasileiros se revelou escandalosamente. Em geral, os nossos
escritores mostraram uma admirável ignorância das coisas que
estavam perto deles. Tivemos caboclos brutos semelhantes aos10
heróis cristãos e bem-falantes em excesso. Os patriotas do
século passado, em vez de estudar os índios, estudaram tupi
nos livros e leram Walter Scott. Tivemos damas das camélias13
em segunda mão. Tivemos paisagens inúteis em linguagem
campanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes, secas
cheias de adjetivos. José Veríssimo construiu um candeeiro em16
não sei quantas páginas.
Muito pouco — rios, poentes cor de sangue,
incêndios, candeeiros.19
Os ficcionistas indígenas engancharam-se
regularmente na pintura dos caracteres. Não mostraram os
personagens por dentro: apresentaram o exterior deles, os22
olhos, os cabelos, os sapatos, o número de botões. Insistiram
em pormenores desnecessários, e as figuras ficaram paradas.
Os diálogos antigos eram uma lástima. Em certos25
romances, os indivíduos emudeciam, em outros, falavam
bonito demais, empregavam linguagem de discurso. Dois
estrangeiros, perdidos nas brenhas, discutiam política,28
sociologia, trapalhadas com pedantismo horrível, que se
estiravam por muitas dezenas de folhas. Via-se perfeitamente
que o autor nunca tinha ouvido nada semelhante ao palavrório31
dos seus homens.
Felizmente, vamo-nos afastando dessa absurda
contrafação de literaturas estranhas. Os romancistas atuais34
compreenderam que, para a execução de obra razoável, não
bastam retalhos de coisas velhas e novas importadas da França,
da Inglaterra e da Rússia.37
(…)
O que é certo é que o romance do Nordeste existe e
vai para diante. As livrarias estão cheias de nomes novos. Não40
é razoável pensarmos que toda essa gente escreva porque um
dia o Sr. José Américo publicou um livro que foi notado com
espanto no Rio:43
— Um romance do Nordeste! Que coisa
extraordinária!
Graciliano Ramos. In: Thiago Mio Salla (Org.). Garranchos/Graciliano
Ramos. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 138-9 (com adaptações).
Com base nas ideias desenvolvidas no texto anterior, julgue (C ou E) os itens seguintes.
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Graciliano Ramos, ao mencionar fatos que revelam a influência da visão eurocêntrica na literatura de ficção produzida no Brasil, aponta a “falta de caráter dos brasileiros” (R. 7 e 8), expressão em que, dados os sentidos do texto, o vocábulo “caráter” deve ser interpretado na acepção de falta de qualidade peculiar.
Anulado. Uma falha de redação do item inviabilizou o seu julgamento objetivo, motivo pelo qual ele foi anulado.
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A frase “Tivemos damas das camélias em segunda mão” (R. 13 e 14) expressa, em linguagem figurada, o que Graciliano denomina “contrafação de literaturas estranhas” (R.34) e, como indica o emprego da expressão “em segunda mão”, o desapreço do autor à produção literária que revelava tal influência.
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A sentença “José Veríssimo construiu um candeeiro em não sei quantas páginas” (R. 16 e 17) é metáfora que expressa a crítica de Graciliano à descrição pormenorizada utilizada por José Veríssimo, em detrimento da construção de personagens verossímeis e de obras em cujo enredo ações e diálogos fossem adequados às figuras nelas retratadas.
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Depreende-se do texto que, segundo o autor, a colonização cultural no Brasil ultrapassou o período da colonização política, fato evidenciado na dificuldade de afirmação da identidade literária brasileira.