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Padrão de Resposta
A frase “antes cair das nuvens, que de um terceiro andar”, retirada do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, sintetiza a desilusão que caracterizou o período entre as duas guerras mundiais do século XX. Após décadas de otimismo, associado ao avanço da industrialização e ao crescimento do comércio mundial, os países europeus iniciaram um conflito que destruiu muitas das principais cidades do continente e que levou ao questionamento de ideia como o progresso, a modernidade e o capitalismo. A Alemanha é exemplo emblemático da desilusão do pós-guerra, uma vez que a fundação da República de Weimar foi uma tentativa de reverter os impulsos expansionistas que haviam contribuído tanto para o início da I Guerra Mundial quanto para a destruição alemã, de modo a evitar nova “queda das nuvens” ou, o que seria pior, uma “queda do terceiro andar”.
A fundação da República de Weimar representa o “cair das nuvens” a que alude Machado de Assis, por marcar o fim do governo imperial alemão responsável pelo projeto de expansionismo da Alemanha. Desde a Guerra Franco-Prussiana, havia grande euforia entre os alemães, associado ao crescente poder econômico, militar e político do novo Estado. Embora, a princípio, a Alemanha buscasse apresentar-se como “potência satisfeita”, como indicado por Otto von Bismarck, o projeto expansionista logo seria recuperado. Durante a I Guerra Mundial, o otimismo alemão seria substituído pelo sentimento de desilusão, uma vez que se evidenciariam os limites do poder do país e, sobretudo, os custos decorrentes do esforço bélico. O estabelecimento do governo republicano, de bases democráticas e não militaristas, consistia na tentativa de evitar que a “queda do terceiro andar”, que poderia ser novo conflito ou a desintegração do Estado alemão, efetivamente ocorresse.
Embora a desilusão característica do período da República de Weimar contribuísse para a fragilidade política alemã na década de 1920, a produção cultural do país seria beneficiada por esse sentimento. Com o objetivo de desvincular-se da ilusão imperialista de grandeza, artistas e intelectuais alemães criariam tendências culturais vanguardistas, como o utilitarismo de Bauhaus e o expressionismo de Fritz Lang. Esses movimentos artísticos visavam a romper com as ilusões de progresso que haviam caracterizado o período anterior a 1914, indicando novas possibilidades de desenvolvimento social para a Alemanha. Assim como seria melhor para Brás Cubas enfrentar a decepção, seria melhor para a Alemanha lidar com a perda da guerra e com o fracasso do projeto expansionista do que contestar o Tratado de Versalhes e arriscar o recrudescimento de um revanchismo militarista.
A ascensão dos nazistas ao poder, na Alemanha, inviabilizaria o projeto pacifista da República de Weimar, o qual seria substituído por uma lógica cultural ufanista e militarista. Embora a queda do governo republicano tenha sido influenciada por aspectos econômicos e políticos, pode-se afirmar que a desilusão decorrente da I Guerra Mundial, um aspecto eminentemente psicossocial, também contribuiu para a radicalização alemã. A coesão de uma sociedade requer um projeto comum de transformação da realidade, de modo que a incapacidade de realizar um desejo compartilhado, como o restabelecimento do antigo Império Alemão, pode ter efeitos sociais tão desestabilizadores quanto acontecimentos reais, como a destruição decorrente de um conflito.
Se, para a Alemanha, o “cair das nuvens” foi a fundação da República de Weimar, após as desilusões associadas à I Guerra Mundial, o início do governo nazista foi, certamente, a “queda do terceiro andar”. Não obstante os esforços dos políticos social-democratas e dos intelectuais vanguardistas alemães, a Alemanha buscou, novamente, o expansionismo territorial que destruíra o país após 1914. Desse modo, pode-se questionar a afirmação de Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de que “antes cair das nuvens, que de um terceiro andar”, uma vez que a primeira queda, que representa a desilusão, tende a ser acompanhada da segunda, que representa, efetivamente, a tragédia.