Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”1
significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir
o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla
significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em4
certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,
“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra
gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um7
homem não é somente o seu feitio moral, senão também a
expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a
personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra10
e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,
podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti
del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e13
pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem
concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos
simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no16
sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o
autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor
caminho para atingir a esta.19
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da
perfeição.
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde22
naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a
expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se
despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza25
de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase
necessários em quem apenas se inicia.
A essência do livro é excelente.28
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que
procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua
estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem31
se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade
de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa
independência sem esforço, reside o da obra em sua34
originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma
perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da
construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.37
O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e
de outras produções secundárias, concorre para a
individualidade desse esplêndido ensaio.40
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que
tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com
tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São43
versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na
memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e
no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não46
é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de
intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência
das sensações.49
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma
funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor
demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se52
limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria
literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo
que lhe auguro. 55
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição
profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a
evidência da beleza não pode ser em arte um critério58
axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da
emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como
a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa61
receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição
íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a64
simplicidade e a frescura das criações espontâneas e
necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro
como deve. 67
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica
compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias
arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que70
leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir
consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e
do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas73
linhas harmoniosas.
A beleza maior do poema, que é também o seu
caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu76
voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu
lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com
isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse79
marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à
acuidade de um eco natural.
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo82
mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu
isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,
sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca85
Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.
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No trecho “É certo que a evidência da beleza não pode ser em arte um critério axiomático” (R. 57 a 59), tanto o termo “certo” quanto o termo “axiomático” caracterizam, respectivamente, referentes que constituem sujeitos oracionais.
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No texto, com a expressão “essa arte de titãs” (R.62), o autor faz referência à arte da música.
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A forma “pôde” (R.22) poderia ser corretamente substituída por pode, visto que o seu tempo verbal é depreendido pelo contexto do parágrafo e que o acento nela empregado é opcional.
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Os pronomes demonstrativos “isso” (R.47) e “esse” (R.48) retomam, respectivamente, o sentido de julgar e decompor as obras e o de processo.