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LÍNGUA PORTUGUESA 2016
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Questão q4 de 2016

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,1
depois do Romantismo. Enquanto nas letras
hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo
século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores4
dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se
podem contar nos dedos das mãos os casos.
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e7
grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.
O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações
uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os10
índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em
filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira
incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a13
história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso
de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o16
qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns
ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,
epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.19
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria
sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de
lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez22
acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,
matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem
narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.25
Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do
desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.
E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de28
Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,
desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à
recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não31
fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo
selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva34
multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a
apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,
encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos37
Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as
tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua
cultura sobreviver, com crescente dificuldade. 40
O romance inteiro soa como uma lamentação, um
carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.
Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma43
espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de
ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e
tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor46
seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
A produção e publicação de um romance como esse,
agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em49
sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser
uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,
filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,52
canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos
lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando
há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da55
civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o
capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.
Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de58
quem está aprendendo a perceber que outras civilizações
encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para
males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do61
poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da
destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da
igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta64
ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter
heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a
importância da civilização indígena esteja, final e67
penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem
a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue (C ou E) os itens subsecutivos.

  1. Ao afirmar que o “índio não teve muita sorte na literatura brasileira” (R.1), a autora indica que a representação literária dos personagens indígenas em romances brasileiros foi marcada pela presença do iñaron, “estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo” (R. 20 e 21).

  2. A autora considera que o romance Maíra é uma incursão do romancista e antropólogo Darcy Ribeiro pelo épico e opina que um “narrador coletivo índio” (R.44) é responsável pelos melhores trechos da mencionada obra literária.

  3. Conforme o texto, iñaron é palavra tupi que não é apropriada para denotar o sofrimento de todas as tribos indígenas, mas poderia denotar os sentimentos de fúria de heróis gregos como Agave e Aquiles.

  4. Ao comparar a representação do índio na literatura brasileira com a do índio na literatura hispano-americana, a autora conclui que romances com percepção antropológica costumam ser mais raros e tendem a incursionar pelo épico.