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Padrão de Resposta
Ao afirmar que é contra a tolerância, José Saramago adota uma opinião aparentemente radical em relação ao tema. No entanto, em seguida, o autor de Ensaio sobre a cegueira elucida o significado do enunciado e, com base na perspectiva profundamente humanista que lhe é característica, defende que a tolerância é melhor que a intolerância, mas que “não é tão boa quanto parece”, porque insuficiente. Apesar do choque inicial, concordo com sua declaração, porquanto o sentido fraco de aceitação contido na ideia de tolerância, muito embora eficaz na prevenção de certos conflitos, não é suficiente para a promoção de uma sociabilidade pautada pela paz e pela prevalência dos direitos humanos. Nessas circunstâncias, emerge a discussão acerca do par antitético tolerar-promover, que permeia a percepção da alteridade nas relações entre pessoas, entre religiões e entre Estados.
A reflexão de Saramago opera a transfiguração da tolerância de virtude em vício, no âmbito das relações interpessoais. De fato, o senso pretensamente positivo encerrado na ideia de tolerar decorre da instauração do medo como afeto central nas relações sociais e culmina não na integração, mas na imobilidade. Contrariamente à máxima hobbesiana da “guerra de todos contra todos”, o ideal de “promover” persegue a aproximação íntima entre “eu” e “outro”, conforme reivindica Clarice Lispector. Em A hora da estrela, a autora, por meio do narrador Rodrigo S.M., emprega a técnica narrativa do discurso indireto livre, de modo a fundir criador e criatura. Assim, Clarice revela a humanidade dilacerada de Macabéa e promove empatia, a fim de alcançar uma síntese dialética entre os sujeitos. A alteridade figura como problemática ainda mais sensível no campo religioso, no qual são mobilizadas as crenças mais profundas dos indivíduos.
Uma percepção vulgar das religiões tende a realçar a oposição inconciliável entre cultos, o que corresponde a uma falácia. Na esfera religiosa, a tolerância revelou-se incapaz não apenas de evitar conflagrações, mas também de promover a integração entre povos. Erving Goffman demonstra de que maneira a associação de grupos a determinadas religiões gera alijamento social e alienação identitária. Por meio de um discurso embasado na tolerância religiosa, ocorre a estigmatização dessas pessoas, como no caso da associação falaciosa entre terrorismo e islamismo. Nesse sentido, afirma-se a aceitação da alteridade desde que os fiéis se submetam a restrições legais, como culto exclusivamente doméstico. Permitir a socialização de grupos religiosos demanda mais que tolerância, e o sincretismo religioso brasileiro constitui ilustração por excelência da viabilidade da integração por meio de crenças. Frequentemente, a supressão de liberdades religiosas resulta da securitização do tema, no plano dos Estados.
A pluralidade ontológica da vida internacional exige a superação da intolerância, consubstanciada, em sua expressão máxima, na guerra. Não obstante, como afirmou o Embaixador Araújo Castro, “a paz é mais que o antônimo de guerra”. Com efeito, o conceito de paz extrapola sua dimensão antitética e compreende a promoção de um arcabouço de ideais e valores conducente à integração dos Estados, consoante o preceituado por Marcel Mauss em A nação. Em sintonia com a noção de solidariedade do antropólogo, o Brasil, país vocacionado para o internacionalismo, promove o sentido forte de paz, que corresponde à integração dos povos pautada pela igualdade soberana, pelo princípio da não indiferença e pela solidariedade. A diplomacia pátria, portanto, estabelece uma relação de igualdade com os outros povos, conforme o ideal de Saramago em sua recusa à assimetria intrínseca à noção de tolerância.
José Saramago expõe uma contradição cuja apreensão exige raciocínio sofisticado. A tolerância implica, de fato, a aceitação das relações assimétricas. Nesse sentido, tolerar não é suficiente para alcançar uma sociabilidade norteada por outros valores. Superar a oposição entre “eu” e “outro”, em harmonia com o ideal clariciano, demanda ir além da tolerância. Em oposição a “evitar”, “promover” constitui uma ideia-força capaz de integrar cultos e consagrar a paz, que é mais que o antônimo de guerra.