CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2017
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Questão q9 de 2017

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra1
e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro,
não representava, no Império, o padrão social dominante.
Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo4
mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos
dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou
de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava,7
visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta,
sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados
ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro10
da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar
socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do
estilo ou nos traços secundários da classe proprietária13
e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é
o termo certo — a uma categoria superior no desfrute
ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu 16
patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado
em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase
uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível19
no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos
fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio
se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular22
estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica,
que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma
classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus25
passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu
no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise.
O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba),28
aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os
bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e
estável.31
Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha
(Quincas Borba), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos
(Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem34
o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos
aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros
desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há37
a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século,
em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e
não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico:40
dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio
de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel
à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos43
de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos
anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza,
de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração.46
“Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 —
ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma
fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se49
em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre
o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração
humano, e as ideias generosas que em grau elevado52
me arrastavam a outros destinos…”. O egoísmo seria a fruição
do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário,
a expansão da economia, que se identificaria, para a classe55
lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel
dinâmico na sociedade, criando atividades novas e
aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo58
e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado
de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil,
como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio61
do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima,
sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação
e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa64
ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore,
e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de
capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.67
Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto IV, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. Tendo o pronome oblíquo sentido possessivo em “sem consultar-lhe as preferências” (R.63), tal trecho poderia ser substituído por sem consultar as suas preferências, mantendo-se, com isso, a correção gramatical e o sentido do texto.

  2. A colocação do pronome em “embriagou-se” (R.12), “Elevava-se” (R.14), ‘Já se vê’ (R.47) e “que se identificaria” (R.55) está de acordo com a variedade formal culta da língua portuguesa e deve-se a razões fonético-sintáticas.

  3. Na linha 23, o emprego da vírgula logo após a expressão “da nova dinâmica” bem como o emprego do artigo definido em “da” indicam que a oração “que agita e move a sociedade” (R.24) não participa da construção da referência dessa expressão.

  4. Tanto em “do albardeiro ao círculo dos fidalgos” (R. 20 e 21) quanto em “dos doze aos trinta e dois anos” (R.41), a preposição de foi empregada no sentido de desde.