O ano de 1881 foi dos mais significativos e1
importantes para a ficção no Brasil, pois que nele se
publicaram as Memórias Póstumas de Brás Cubas,
de Machado de Assis (saídas na Revista Brasileira, no ano4
anterior) e O Mulato, de Aluísio Azevedo. Com estes livros
se encerrava a indecisão da década de setenta, e tomavam
corpo duas das tendências nela delineadas, a da análise,7
prenunciada nos primeiros trabalhos do próprio Machado
de Assis, e a naturalista, prefigurada principalmente pelo
Coronel Sangrado, de Inglês de Sousa, e por Um Casamento10
no Arrabalde, de Franklin Távora. A terceira, a regionalista,
só um pouco depois ganharia feição mais nítida.
No momento, impressionou muito mais a novidade13
do Mulato — sob muitos aspectos ainda tão preso às
deformações românticas — do que a do Brás Cubas,
muito mais completa e audaciosa. É que aquele não só trazia16
um rótulo em moda, como, parecendo revolucionário e
de fato o sendo pelo tema, continuava a velha linha nacional
de romances que encontravam na descrição de costumes o seu19
centro de gravidade; foi por isso mais facilmente entendido
e admirado. Pelos livros de Zola e Eça de Queirós, estavam
o meio intelectual e o público que lia preparados para receber22
afinal uma obra naturalista brasileira, que na verdade se fazia
esperar, ao passo que nada os habituara de antemão à nova
maneira de Machado de Assis, já que nenhum crítico25
vislumbrara as sondagens psicológicas escondidas sob os casos
sentimentais que até então de preferência contara. Toda a gente
se deslumbrou — ou se escandalizou — com O Mulato,28
sem perceber que o espírito de inovação e de rebeldia
estava mais nas Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo,31
o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana,
as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção
do predomínio do amor sobre todas as outras paixões;34
afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro sem
recorrer à natureza, desdenhava-se a cor local, colocava-se um
autor pela primeira vez dentro das personagens; surgiam afinal37
homens e mulheres, e não brasileiros, ou gaúchos, ou nortistas,
e — last but not least — patenteava-se a influência inglesa em
lugar da francesa, introduzia-se entre nós o humorismo. 40
A independência literária, que tanto se buscara,
só com este livro foi selada. Independência que não significa,
nem poderia significar, autossuficiência, e sim o estado43
de maturidade intelectual e social que permite a liberdade
de concepção e expressão. Criando personagens e ambientes
brasileiros — bem brasileiros —, Machado não se julgou46
obrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque a
consciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia
de elementos decorativos. Aquilo que reputava indispensável49
ao escritor, “certo sentimento íntimo que o torne homem do seu
tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos
no tempo e no espaço”, ele o possuiu inteiramente, com52
uma posse tranquila e pacífica. E por isso pôde — o primeiro
entre nós — ser universal sem deixar de ser brasileiro.
Todas essas qualidades, das quais algumas já se55
haviam delineado nos livros anteriores do seu autor, fizeram
das Memórias Póstumas de Brás Cubas um acontecimento
literário de imenso alcance. Tanto no presente como no58
passado alterava o nosso panorama literário, porque exigia a
revisão de valores que, segundo T. S. Eliot, se dá cada vez
que surge uma obra realmente nova. Aplicando ao restrito61
patrimônio das letras brasileiras a fórmula empregada um
plano muito mais vasto pelo crítico inglês, podemos dizer
que o aparecimento do Brás Cubas modificou a ordem64
estabelecida. (…)
Descontada a parte do coeficiente pessoal — sem
dúvida a mais importante — a obra de Machado de Assis67
revela que já possuíamos, no fim do Segundo Reinado,
um organismo social melhor definido do que faria supor
a confusão reinante nos domínios literários entre o indivíduo70
e o meio físico ou o clã a que pertencia. (…) Abandonando
os episódios sentimentais a que até esse momento mais ou
menos se ativera, instalando-se no íntimo de suas criaturas,73
Machado de Assis descobriu seres cujas reações
especificamente brasileiras não contrariavam o caráter mais
larga e profundamente humano.76
E, entretanto — tais são os erros de perspectiva
dos contemporâneos —, o que a todos pareceu novidade
completa foi O Mulato, que inaugurava muito mais uma79
maneira literária do que um ângulo de visão diferente.
O movimento naturalista a que deu início empolgaria os
escritores, marcaria com o seu sinete não apenas o decênio82
que começava, mas também em boa parte o que se lhe seguiria,
enquanto que, na época, só Raul Pompéia se deixaria seduzir
pelas análises praticadas no Brás Cubas. Havia, porém,85
nesses dois livros de índole tão diversa, um traço comum:
em ambos triunfava a observação.
Lúcia Miguel Pereira. História da literatura brasileira – Prosa de ficção – de 1870
a 1920. Rio de Janeiro: José Olympio/INL, 1973, 3.a ed., p. 53-5 (com adaptações).
Com relação a aspectos gramaticais do texto I, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
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Sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, o trecho “Abandonando os episódios sentimentais (…) larga e profundamente humano” (R. 71 a 76) poderia ser reescrito da seguinte forma: Ao abandonar os episódios sentimentais que até esse momento se tenha privilegiado e ao instalar-se no íntimo de suas criaturas, descobriu, Machado de Assis, seres em que reações tipicamente brasileiras não eram contrárias ao caráter humano no sentido mais largo e profundo.
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Em “Descontada a parte do coeficiente pessoal” (R.66), a palavra “coeficiente” foi empregada no sentido de fator, circunstância.
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A retirada do pronome oblíquo na oração “ele o possuiu inteiramente” (R.52) preservaria a correção gramatical e o sentido original do texto.
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Os sujeitos das formas verbais “varriam-se” (R.31) e “afirmava-se” (R. 35) estão elípticos, e seu referente é a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas.