CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2017
Modo de Visualização Pública: Você receberá feedback instantâneo, mas suas respostas não serão salvas. Faça login para salvar seu progresso.
Questão q4 de 2017

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Dei em passear de bonde, saltando de um para outro,1
aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veículo
em outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e daí à Vila Isabel;
e assim, passando de um bairro para outro, procurando4
travessas despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade —
tal qual os bondes a fizeram alternativamente povoada
e despovoada, com grandes hiatos entre ruas de população7
condensada e toda ela, agitada, dividida, convulsionada
pelas colinas e contrafortes da montanha em cujas vertentes
crescera. Jantava, uns dias; em outros, almoçava unicamente;10
e houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. (…)
Abelardo Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta
e revolucionário. Como poeta tinha a mais sincera admiração13
pela beleza das meninas e senhoras de Botafogo. Não faltava
às regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os lugares
em que elas apareciam em massa; (…). Como revolucionário,16
dizia-se socialista adiantado, apoiando-se nas prédicas
e brochuras do Senhor Teixeira Mendes, lendo também
formidáveis folhetos de capa vermelha, e era secretário19
do Centro de Resistência dos Varredores de Rua. Vivia
pobremente, curtindo misérias e lendo, entre duas refeições
afastadas, as suas obras prediletas e enchendo a cidade com22
os longos passos de homem de grandes pernas.
Depois de nossas relações, era frequente passearmos
juntos. Saíamos às dez horas, tomávamos café e andávamos25
até as três ou quatro da tarde. A essa hora separávamo-nos
em obediência a uma convenção tácita. Tratava-se de jantar
e cada um de nós ia arranjar-se. À tarde, encontrávamo-nos28
e íamos conversar a um café com alguns outros amigos dele,
na mor parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes
empregos, pretendendo virar a face do mundo para ter almoço31
e jantar diariamente. Leiva era o chefe, era a inteligência
do grupo, pois, além de poeta, tinha todos os preparatórios
para o curso de dentista. Eu gostava de notar a adoração34
pela violência que as suas almas pacíficas tinham,
e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam
remédios. Embora mais moço que ele, várias vezes cheguei 37
a sorrir aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltava
inteligência, sinceridade também; o que não encontravam
era uma soma de necessidades a que viessem responder40
e sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações.
Insurgiam-se contra o seu estado particular, oriundo talvez
mais de suas qualidades de caráter do que de falhas43
de temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos,
independentes e isso não leva ninguém à riqueza e à
abastança. Leiva era quem mais exagerava nos traços46
do caráter comum e se encarregava de pintar os sofrimentos
da massa humana. Era um grupo de protestantes, detestando
a política, dando-se ares de trabalhar para obra maior,49
a quem as periódicas “revoluções” não serviam. Um ou outro
acontecimento vinha-lhes dar a ilusão de que eram guias da
opinião. Leiva gabava-se de ter feito duas greves e de ter52
modificado as opiniões do operariado do Bangu com as suas
conferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura,
os seus rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta, mais55
sinceros talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar as
suas terríveis opiniões em publicações pouco lidas.
No entanto, Leiva parecia-me mais sincero na58
sua poesia palaciana e de modista do que nas ideias
revolucionárias. Não o julgava perfeitamente hipócrita;
era a sua situação que lhe determinava aquelas opiniões; o seu61
fundo era cético e amoroso das comodidades que a riqueza dá.
Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e surgiria
então o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba,64
dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado com
uma ruga no fraque novo que viera do alfaiate.
Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha.
São Paulo: Brasiliense, 1956, p.133-6 (com adaptações).

Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. No período “Creio que lhes não faltava inteligência, sinceridade também; o que não encontravam era uma soma de necessidades a que viessem responder e sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações” (R. 38 a 41), as negações enfatizam a sequência de características depreciativas atribuídas ao grupo de Leiva, para o que contribui o emprego do adjetivo “furiosas” e do modo subjuntivo, que destaca a inconsistência de suas ações.

  2. A conjunção “Embora” (R.37) pode ser substituída por Posto que, mantendo-se o sentido e a correção gramatical do texto.

  3. O tom memorialista do primeiro parágrafo manifesta-se pelo uso predominante de formas verbais que denotam o início de determinadas ações, das quais são exemplos “Jantava” e “almoçava”, ambas na linha 10, e “Vivia” (R.20).

  4. Da leitura do período “Como revolucionário, (…) dos Varredores de Rua” (R. 16 a 20), é correto inferir que, além de “formidáveis folhetos de capa vermelha”, o senhor Teixeira Mendes lia “prédicas e brochuras”.

    ALTERAR de C para E. Tendo em vista a coordenação estabelecida entre os termos “ apoiando-se” e “lendo”, é correto afirmar que Abelardo Leiva é quem lia “os formidáveis folhetos de capa vermelha”.