Escrita em prosa e verso, a Carta Marítima é1
formalmente um poema sui generis, que supera as divisões
convencionais do discurso. Quanto à mensagem, tem elementos
de uma alegre sátira ideologicamente avançada para4
o acanhado meio português do tempo, na qual Sousa Caldas
censura os privilégios e a vida materializada, presa a uma
educação artificial e obsoleta, sugerindo a regeneração7
da sociedade por meio de uma transformação como a
que lhe parecia estar em curso na França revolucionária.
No plano cultural, satiriza a tirania da herança greco-latina10
e aspira a algo diferente, que não formula, sendo porém
significativo que enquanto menciona Homero como exemplo
de poeta desligado do real, fechado num mundo factício, louve13
um moderno, Cervantes, que assim privilegia como autor
de obra-prima mais adequada ao tempo, e que de mais a mais
reforça o seu propósito na Carta, por ser ela própria uma sátira16
contra costumes e convenções cediças. Portanto, já em 1790
Caldas insinuava a necessidade de mudar os padrões, e o fazia
com mais força e originalidade do que faria seis anos depois19
o francês Joseph Berchoux, na citadíssima e medíocre Elegia
sobre os Gregos e os Romanos, onde os acusa de lhe
infelicitarem a vida. (…)22
A mudança sugerida na Carta levaria o tempo de uma
geração para acontecer. Mas mesmo sem propor novos rumos
Sousa Caldas contribuiria a seu modo, ao descartar no resto25
da obra a imitação da Antiguidade e voltar-se para os temas
religiosos, que o Romantismo consideraria mais tarde como um
dos seus timbres diferenciadores. Pelo fato de ter remontado28
na tradução dos Salmos à poesia bíblica, embora nada tenha
de pré-romântico ele foi considerado mais ou menos precursor
a partir do decênio de 1830; mas é inexplicável que31
os românticos nunca tenham mencionado a Carta, que
poderia, na perspectiva deles, ser lida como verdadeiro
manifesto modernizador.34
Curioso a este respeito é o caso de Gonçalves de
Magalhães, que publicou em 1832 o pífio volume Poesias,
encharcado da rotina mais banal daquele momento de exaustão37
literária, inclusive com recurso constante à mitologia clássica.
Mas no ano seguinte escreveu que não queria mais saber dela,
por clara influência da Carta Marítima, imitada quase40
ritualmente numa Carta ao Meu Amigo Dr. Cândido Borges
Monteiro (datada do Havre, 1833), onde narra a sua própria
viagem à França. Vistas as coisas de hoje, isto parece uma43
inflexão por influência de Sousa Caldas, antes da conversão
estética ocorrida em Paris e manifestada na revista Niterói.
Por que então nos escritos renovadores Magalhães não46
mencionou esta sua precoce mudança de rota, nem mesmo
quando se referia a Sousa Caldas? Difícil imaginar os motivos,
sobretudo quando pensamos que os primeiros românticos49
queriam a todo custo encontrar precursores, evocando
Durão, Basílio, São Carlos e Sousa Caldas entre os principais.
Talvez porque para quem tinha andado de braço com as musas52
clássicas, como o Magalhães de Poesias, a carga mitológica
da Carta Marítima parecesse, na hora de renovar,
incompatível com a nova moda. Por isso, não apenas deixou55
a sua própria Carta fora dos Suspiros Poéticos, mas só
se animou a publicá-la em 1864, no volume Poesias Avulsas
das suas obras completas, onde recolheu pecados da mocidade.58
No entanto, se a tivesse divulgado na altura da sua pregação
renovadora ela teria sido (apesar da péssima qualidade)
um argumento de certo peso no rastreamento de sinais61
precursores e da sua própria antecipação. (…)
No rasto de Magalhães, os primeiros românticos
também puseram de lado a Carta de Sousa Caldas, que talvez64
tenham mesmo treslido, sem perceberem a força renovadora
que está implícita na sua brincadeira profilática e faz dela
indício precursor de certos aspectos que o nosso Romantismo67
assumiria, sem deixar com isso de ser um documento,
plantado no solo setecentista da Ilustração.
Antonio Candido. Carta Marítima. In: O discurso e a cidade.
São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 220-2 (com adaptações).
Com relação a aspectos linguísticos e textuais do texto III, julgue (C ou E) os seguintes itens.
-
Com o emprego de construções como “Vistas as coisas de hoje” (R.43) e “Difícil imaginar os motivos” (R.48) e da forma verbal “pensamos” (R.49), o autor confere um tom impessoal ao texto.
-
Os adjetivos “pífio” (R.36) e “encharcado” (R.37) e a expressão “exaustão literária” (R. 37 e 38) são empregados, no texto, em sentido conotativo.
-
Sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, o trecho “No rasto de Magalhães, (…) sua brincadeira profilática” (R. 63 a 66) poderia ser reescrito da seguinte forma: Os primeiros românticos também ignoraram a Carta de Sousa Caldas; assim como Magalhães, não perceberam a força subjacente em sua brincadeira preventiva, e talvez eles mesmos a tenham lido às avessas.
-
A expressão “a este respeito” (R.35) retoma a ideia defendida no parágrafo anterior: Sousa Caldas contribuiu a seu modo para as mudanças na poesia do Romantismo, embora não tenha proposto caminhos novos.