O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável1
da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos
marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos
quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ou4
porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o
assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem
amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o7
fascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seus
cuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é
que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem10
a esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,
que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos
do conquistador europeu, é em seu caso constantemente13
cerceado por uma noção mais nítida, porventura, das
limitações humanas e terrenas. (…) Não está um pouco nesse
caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudo16
para o particular e o concreto, que vemos predominar entre
nossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,
melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, Frei19
Vicente do Salvador, é uma curiosidade relativamente
temperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente
utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.22
(…) Muito mais do que as especulações ou os desvairados
sonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção
do mundo desses escritores e marinheiros.25
Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso.
São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.
A respeito dos aspectos linguísticos do texto IX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
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As formas verbais “tivessem amortecido” (R. 6 e 7) e “absorvesse” (R.8) remetem, respectivamente, às fases final e inicial dos eventos que exprimem.
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A expressão “porventura” indica que o trecho “por uma noção mais nítida, porventura, das limitações humanas e terrenas” (R. 14 e 15) tem sentido hipotético.
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Nas linhas 9 e 10, “é que” caracteriza-se como expressão expletiva, empregada para realçar o conteúdo “não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem a esperança deles” (R. 10 e 11).
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O advérbio “melhor” (R.19) foi empregado pelo autor para retificar conteúdo já enunciado.