CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2018
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Questão q9 de 2018

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Até meados do século XIX, a classe que trafica1
adquire bens para convertê-los em lucro e benefício. Daí em
diante, ela será outra. Um traço para distinguir as duas fases já
foi lembrado: o despertar do entorpecimento que lhe causava4
a predominância social da classe proprietária, por sua vez, na
cúpula, recoberta pelo estamento dos que mandam, governam
e dirigem a política. Mas que não haja equívoco: o arrastar na7
sombra denunciava-lhe prestígio negativo, oriundo da
composição de estrangeiros entre seus membros e do tipo de
negócios a que se dedicava, sobretudo no comércio negreiro.10
Não que vivesse alheia à importância econômica ou à
eficiência no trato do sistema. Era ela a categoria dinâmica da
economia, a que lhe dava impulso à energia, financiando a13
produção, com o fornecimento de crédito e escravos.
Sobretudo, armava o elo que ligava o café ao comércio
mundial, polo diretor, em última instância, da economia16
nacional, dependente de flutuação de centros de decisões fora
do país. De outro lado, comunicava às cidades e ao campo a
modernização, de nível europeu, de mercadorias, e, por via19
delas, de costumes, modas e hábitos de consumo. Estava na
sombra, mas não lhe faltava atividade, vibração nervosa e
energia. Por via desse subterrâneo pulsar, ligava-se ao estrato22
dirigente, o estamento, com repulsa e, não raro, em oposição
de estilos de vida, mas em íntima compreensão, além da zona
dos salões e dos palácios, aos interesses materiais. Assim é25
que, antes de 1850, a arquitetura política, caracterizada no
centralismo, servia mais ao grupo dos negociantes,
comissários, traficantes de escravos, importadores e28
exportadores, do que aos isolados produtores e fazendeiros.
Servia-a, também, a estabilidade monetária, quebrada de
maneira grave com a agitação de fazendeiros e especuladores31
industriais no fim do império. Houve um momento em que ela
— a classe lucrativa — se emancipou, passou a viver de seu
próprio impulso, sem se disfarçar ou mascarar-se em traços34
secundários de outra classe, detentora de maior expressão
social, ou do estrato monopolizador do prestígio político. Sobe
uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essa37
camada. Individualmente, é o momento da crise — o homem
escolhe o seu caminho, desdenhando o curso batido e
frequentado. Socialmente, toda uma camada quer os bens da40
vida, materiais e ideais, sem arrimos ou auxílios, agora vistos
como ilegítimos. O empresário faz-se na cidade, conquista
títulos de nobreza e cadeiras no parlamento. Foi neste43
momento que a surpreendeu Machado de Assis, mal inclinado
a ela por força de seu preconceito, nutrido de tradição. No seu
sarcasmo, ferindo-a de zombarias e riso, ele vê um mundo que46
cresce a sua frente, transformando a sociedade — ele tudo vê,
com escândalo, repugnância e indignação. O dinheiro,
avassalando os negócios, invade as consciências,49
infundindo torpeza em toda parte, na queda de escrúpulos,
virtudes e valores.
Raymundo Faoro. Lucro e negócios — classe lucrativa. In: Machado
de Assis — a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1974. p. 226 (com adaptações) .

Ainda considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto XI, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. No período “Sobe uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essa camada” (R. 36 a 38), os termos “uma classe” e “muitos aspirantes a essa camada” exercem função de sujeito nas orações em que se inserem.

  2. A correção gramatical e os sentidos do texto seriam preservados caso o trecho “ligava-se ao estrato dirigente, o estamento, com repulsa” (R. 22 e 23) fosse reescrito da seguinte forma: relacionava-se com a camada que estava no poder, à corte, com aversão.

  3. No trecho “toda uma camada quer os bens da vida” (R. 40 e 41), o artigo indefinido foi empregado como item de realce, razão por que sua eliminação não prejudicaria a correção gramatical nem o sentido original do texto.

  4. Nas expressões “seu preconceito” (R.45) e “seu sarcasmo” (R. 45 e 46), o pronome possessivo remete a referentes distintos.