Impugnada a todo instante pela escravidão a ideologia1
liberal, que era a das jovens nações emancipadas da América,
descarrilava. Seria fácil deduzir o sistema de seus
contrassensos, todos verdadeiros, muitos dos quais agitaram a4
consciência teórica e moral de nosso século XIX. Já vimos
uma coleção deles. No entanto, estas dificuldades
permaneciam curiosamente inessenciais. O teste da realidade7
não parecia importante. É como se coerência e generalidade
não pesassem muito, ou como se a esfera da cultura ocupasse
uma posição alterada, cujos critérios fossem outros — mas10
outros em relação a quê? Por sua mera presença, a escravidão
indicava a impropriedade das ideias liberais; o que, entretanto,
é menos que orientar-lhes o movimento. Sendo embora a13
relação produtiva fundamental, a escravidão não era o nexo
efetivo da vida ideológica. A chave desta era diversa. Para
descrevê-la é preciso retomar o país como todo.16
Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu,
com base no monopólio da terra, três classes de população: o
latifundiário, o escravo e o “homem livre”, na verdade19
dependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é a
multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários
nem proletários, seu acesso à vida e a seus bens depende22
materialmente do favor, indireto ou direto de um grande. O
agregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o mecanismo
através do qual se reproduz uma das grandes classes da25
sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se
ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida
ideológica, regida, em consequência, por este mesmo28
mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor
atravessou e afetou no conjunto a existência nacional,
ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada31
pela força. Esteve presente por toda parte, combinando-se às
mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como
administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte34
etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou
qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção
europeia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram37
governadas por ele. E assim como o profissional dependia do
favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário
depende dele para a segurança de sua propriedade, e o40
funcionário para o seu posto. O favor é a nossa mediação
quase universal — e, sendo mais simpático do que o nexo
escravista, a outra relação que a colônia nos legara, é43
compreensível que os escritores tenham baseado nele a sua
interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a
violência, que sempre reinou na esfera da produção.46
Roberto Schwarz. As ideias fora do lugar.
In: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas
C idades , 1992 ( com adap tações ) .
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto XII, julgue (C ou E) os itens seguintes.
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Para o autor, como “mediação quase universal” (R. 41 e 42), o favor possuía não apenas a virtude de compor a base das relações coloniais, mas também servia ideologicamente à elisão, na literatura, da violência que estruturava o modo de produção brasileiro.
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A correção gramatical e o sentido do texto seriam preservados caso o período “Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada pela força.” (R. 29 a 32) fosse assim reescrito: Dessa forma, o favor atravessou e afetou, no conjunto e com mil formas e nomes, a existência nacional, embora a relação produtiva de base estivesse sempre ressalvada e assegurada pela força.
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Segundo preconiza o Novo Acordo Ortográfico, o vocábulo “contrassensos” (R.4) é grafado conforme as mesmas regras que antissocial.
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Do período “O agregado é a sua caricatura” (R. 23 e 24), é correto inferir que o agregado é uma caricatura de si próprio.