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LÍNGUA PORTUGUESA 2018
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Questão q4 de 2018

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Texto VI
A segunda ignorância que tira o merecimento ao amor1
é não conhecer quem ama, a quem ama. Quantas cousas há no
mundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama,
haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e não4
ao amor (…) Deste discurso se segue uma conclusão tão certa
como ignorada; e é que os homens não amam aquilo que
cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o7
que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há.
Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes
estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são10
perfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amais
diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais
que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas.13
Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Donde
também se segue que amam o que verdadeiramente não há;
porque amam as cousas, não como são, senão como as16
imaginam; e o que se imagina, e não é, não o há no mundo.
Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato. In: Sermões Escolhidos.
Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1996, p. 144-5.

Texto VII
Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois1
princípios que se combatem e regulam diversamente as
atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos
tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedades4
rudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,
na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores
e os povos lavradores (…) Existe uma ética do trabalho, como7
existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo
trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente
ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e10
detestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,
imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,
vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com a13
concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Por
outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma
recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tanto16
as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança
pessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito
material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis para19
eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o
ideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,
tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.22
Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p. 44 (com adaptações).

Texto VIII
A maior injustiça que se poderia fazer a um1
regionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismo
ou com bairrismo. Com anti-internacionalismo,
antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário a4
qualquer espécie de separatismo que, mais unionista que o
atual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do
estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pela7
República — este sim, separatista —, para substituí-lo por
novo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes
que os Estados, se completem e se integrem ativa e10
criadoramente numa verdadeira organização nacional.
Gilberto Freyre. Manifesto regionalista. Recife: Editora Massangana, 1996, p. 49.

Texto IX
O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável1
da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos
marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos
quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ou4
porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o
assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem
amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o7
fascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seus
cuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é
que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem10
a esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,
que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos
do conquistador europeu, é em seu caso constantemente13
cerceado por uma noção mais nítida, porventura, das
limitações humanas e terrenas. (…) Não está um pouco nesse
caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudo16
para o particular e o concreto, que vemos predominar entre
nossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,
melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, Frei19
Vicente do Salvador, é uma curiosidade relativamente
temperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente
utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.22
(…) Muito mais do que as especulações ou os desvairados
sonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção
do mundo desses escritores e marinheiros.25
Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso.
São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.

Com base nas ideias desenvolvidas nos textos VI, VII, VIII e IX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. Infere-se do texto VI que, para Padre Antonio Vieira, a ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer o que se ama nem ter com o que se ama o adequado cuidado.

  2. No texto VII, não obstante o emprego dos substantivos “imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem” (R. 12 e 13), Sérgio Buarque de Holanda não atribui conotação negativa à ética da aventura.

  3. Com base nas ideias expressas no texto VIII, é correto concluir que, na opinião de Gilberto Freyre, uma organização baseada em um sistema de regiões poderia substituir o sistema de Estados federados e fortalecer a união nacional, embora a proposta de “regionalismo” contenha o risco do separatismo lamentavelmente desenvolvido pela República por meio do que ele chama de “estadualismo” (R.7).

  4. No texto IX, o autor apresenta os seguintes argumentos para justificar o reduzido “gosto da maravilha e do mistério” (R.1) dos cronistas portugueses do século XVI sobre o Novo Mundo: redução da sensibilidade para o exótico causado pela longa prática de navegações e pelo assíduo trato de terras e gentes estranhas; consciência das limitações humanas e terrenas da presença de riquezas fabulosas presentes em outras partes do continente; realismo desencantado, concreto e utilitário.

    Anulado. A redação proposta para o item tornou‐se ambígua, fato que prejudicou seu julgamento objetivo.