Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois1
princípios que se combatem e regulam diversamente as
atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos
tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedades4
rudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,
na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores
e os povos lavradores (…) Existe uma ética do trabalho, como7
existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo
trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente
ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e10
detestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,
imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,
vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com a13
concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Por
outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma
recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tanto16
as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança
pessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito
material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis para19
eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o
ideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,
tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.22
Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p. 44 (com adaptações).
Com relação aos aspectos linguísticos do texto VII, julgue (C ou E) os itens seguintes.
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Infere-se do texto que o homem aventureiro é um tipo belicoso, contrário “à estabilidade, à paz, à segurança pessoal” (R. 17 e 18), e materialista, pois concentra esforços no “rápido proveito material” (R. 18 e 19).
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Na variedade culta da língua portuguesa falada ou escrita no Brasil, além da ocorrência de expressões como “podem assinalar-se” (R.1), em que o pronome aparece em ênclise à forma verbal infinitiva, verifica-se a ocorrência de próclise a essa forma verbal — podem se assinalar —, ambas consideradas corretas pela gramática.
ALTERAR de C para E. A utilização da expressão “ambas consideradas corretas pela gramática” prejudicou o julgamento objetivo do item.
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O acento indicativo de crase utilizado à linha 17 poderia ser suprimido, mantendo-se a correção gramatical e as principais informações do texto, tendo em vista a variação, no português do Brasil, da transitividade do verbo visar com a acepção ter em vista, ter como fim ou objetivo.
Anulado. Uma vez que há três ocorrências de acento indicativo de crase na linha citada e que não se especifica a que ocorrência se refere o item, prejudicou‐se seu julgamento objetivo.
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O trecho “tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical” (R.22) exprime uma relação de proporcionalidade entre “uma oposição absoluta” e “uma incompreensão radical”.