O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém![…]
A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros… Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.[…]
Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo… Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual e é o que é.[…]
O senhor não pode estabelecer em sua ideia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?
Considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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No primeiro excerto, o narrador revela-se “forro” (linha 2) e desconfiado de tudo e de todos, perplexo diante de novas ideias e pensamentos.
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No segundo excerto, o narrador mostra-se confuso e contraditório, oscilando entre certeza e incerteza, conhecimento e assombro, realidade e imaginação.
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O sentido do adjetivo “furiável” (linha 19) remete a uma natureza ordenada, determinada; por conseguinte, o presente também se submete à lógica da obediência.
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O adjetivo “quinhoã” (linha 21) refere-se ao quinhão de tristeza que cabe ao narrador.