CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2020
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Questão q1 de 2020

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Uma página em branco

Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma. Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase, título: UMA PÁGINA EM BRANCO.
Como se escolhe uma camisa, um filme, um itinerário de viagem, um partido político, incorpora-se um destino. Como se escolhe uma entre as mulheres possíveis e com ela se irá gastar os melhores anos da vida.
Pronto, está escolhido, tipos negros mancham agora uma página branca, comprometida, é só seguir o fio. Mas, que fio?
Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa e colocou-se na máquina uma página em branco com todas as possibilidades possíveis. Como, lá fora, um universo cheio de vidas escolhíveis. Então que se encarne numa dessas vidas, vias, fios. Que se ponha lá entre as vozes, os gritos, os risos. Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha.
De qualquer modo é preciso que entre os dedos, a mente, as teclas não se interponham mais do que uma membrana, um cordão líquido, umbigo. E, escorregando, outras palavras negras avancem mais na floresta do branco, teçam lá dentro o tal fio.
Um livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito. Como se cada homem já nascesse com seu próprio livro.
Deixar pois o itinerário a este acaso necessário, predestinado. Que a mulher, a viagem, a estória e a História de certo modo o escolham, ao invés de serem escolhidas. Livrem-no de escolher por si mesmo entre todas as hipóteses do possível. E libertem-no de qualquer possibilidade porventura escolhida.

Com base nos aspectos linguísticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. Em textos literários, por vezes infringem-se as regras da gramática normativa. No mencionado texto, um exemplo de não observância das regras gramaticais pode ser encontrado na linha 13, no uso da vírgula após "Mas", e outro exemplo pode ser encontrado na linha 32, na ausência de vírgulas que isolem a conjunção "pois".

    ALTERAR de C para E. (…) "mas", como advérbio, (…) pode ser sucedido de vírgula.

  2. A partícula "se" em "Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa" (linha 15) funciona como índice de indeterminação do sujeito.

  3. O trecho "Ou, quem sabe? — apenas permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha." (linhas de 21 a 24) poderia ser reescrito, mantendo-se a correção gramatical e os sentidos do texto, da seguinte forma: Ou, quem sabe, apenas permanecer em uma casa-caixa, cujos quartos durmam crianças, em cujo fogão haja um resto de comida e em cuja cama haja uma certa mulherzinha esperando.

  4. Na linha 34, o pronome "o" pode ter como referente tanto o nome "homem" (linha 31) quanto o sintagma "o itinerário" (linha 32); em ambos os casos, a coerência do texto é preservada.

    ALTERAR de C para E. (…) apenas a referência a "o homem" seria possível (…)