O alimento representa o povo que o consome em uma imagem imediata e perceptiva. Dá a impressão confusa e viva do
temperamento e da maneira de viver, de conquistar os víveres, de transformar o ato de nutrição em uma cerimônia indispensávelde convívio humano.
A cozinha dos povos colonizadores não erradicou a cozinha dos povos colonizados. Houve, naturalmente, umainterdependência tanto maior quanto o grau de assimilação seja mais alto. […] A população nascida dessas raízes étnicas possuiráuma cozinha participante de ambas as influências.
A feijoada, simples ou “completa” (sempre incompleta, no julgamento dos entendidos), é o primeiro prato brasileiro emgeral. Inútil tentar divulgá-la como atração turística. Será mesmo que oferecer caracóis e rãs a um sertanejo velho.Demasiadamente nutritiva, indigesta, estarrecedora. Certos alimentos exigem a capacidade conterrânea do consumo e do gosto,intransmissível ao estrangeiro, mesmo curioso de originalidades anômalas. Todos esses visitantes possuem suas maravilhas locaisque escapam ao nosso gabo sincero. […] O paladar não é tão universal como a fome. Há distinções, resistências, peculiaridades,imposições misteriosas para o entendimento. A feijoada é uma dessas obras-primas, obrigando iniciação nacionalizante.
CASCUDO, Luís da Câmara.História da alimentação no Brasil.
São Paulo: Global Editora, 2016 (1a edição digital), com adaptações.
Com base na leitura dos trechos apresentados, comente a afirmação a seguir.
“O alimento representa o povo que o consome.”