Combine as duas metáforas observadas nos títulos apresentados (recursos 't1' e 't2') e discorra a respeito do que, em sua opinião, seria a “terceira margem” do Atlântico Sul.
Extensão do texto: 65 a 70 linhas.
Valor: 60 pontos.
Combine as duas metáforas observadas nos títulos apresentados (recursos 't1' e 't2') e discorra a respeito do que, em sua opinião, seria a “terceira margem” do Atlântico Sul.
Extensão do texto: 65 a 70 linhas.
Valor: 60 pontos.
Alberto da Costa e Silva, embaixador e imortal da Academia Brasileira de Letras, realizou diversos estudos sobre a África. Uma de suas obras tem o título de Um rio chamado Atlântico, o qual pode ser considerado metáfora da proximidade histórica, social e cultural entre o Brasil, localizado na margem ocidental do oceano, e os países da África, com destaque para aqueles que têm territórios na margem oriental. A relação entre Brasil e África não apenas influenciou os territórios brasileiros e africanos, mas também resultou na criação de uma “terceira margem do rio”, segundo os termos utilizados por João Guimarães Rosa. Formou-se uma perspectiva comum a respeito do Atlântico Sul, baseada na defesa da paz e do desenvolvimento.
No período da Pangeia, os litorais do Brasil e da África faziam parte da mesma unidade geofísica, a qual foi posteriormente separada pelo oceano Atlântico. O denominado “Mar Oceano” viabilizou os processos responsáveis pelo estabelecimento das primeiras relações entre as duas margens oceânicas: a colonização europeia e a escravidão. Um implicou o desenvolvimento de características religiosas e linguísticas semelhantes. O outro transformou o Brasil no país com a segunda maior população negra do mundo. A violência da ocupação colonial e da escravização de africanos e indígenas resultou em problemas comuns longevos, como a desigualdade e a onipresença do que Maria Sylvia de Carvalho Franco denominou “ajuste violento”. A população de origem africana teve grande influência sobre a cultura brasileira. A arquitetura dos engenhos coloniais assemelhava-se ao desenho dos “agbo-ilês” dos chefes tribais africanos – nas duas margens do Atlântico, predominavam relações patriarcais. No que diz respeito à linguagem, estudo da Universidade Federal da Bahia indica que a repetição do advérbio de negação em frases, como “não quero não”, e a forte entonação das vogais são evidências da influência africana. No âmbito da arte, as obras dos compositores Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus evidenciam a proximidade entre os cantos das religiões iorubás e o samba.
O Brasil tem importância considerável para a África. No período colonial, o alto valor das trocas comerciais aproximou as duas margens oceânicas, o que, depois da independência do Brasil, resultou na proposta africana de unificação política. Após séculos de esquecimento, as relações foram retomadas na década de 1950. A perspectiva lusotropicalista foi, paulatinamente, substituída pelo reconhecimento da dívida histórica do Brasil em relação aos negros. Nas últimas décadas, os contatos foram aprofundados, como exemplificado pelo aumento do comércio, dos intercâmbios culturais e da cooperação. São notáveis, nesse sentido, a construção de fábrica de medicamentos em Maputo e o interesse por novelas e músicas brasileiras em Angola.
A relação entre os países situados nas duas margens do Atlântico Sul resultou na criação da “terceira margem do rio”, baseada nos valores da paz e do desenvolvimento. América do Sul e África foram reconhecidas como zonas livres de armas nucleares pelos tratados de Tlatelolco e Pelindaba. A fundação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), em 1986, livrou essa região oceânica desse tipo de armamento. Os membros da ZOPACAS combatem a “securitização” do Atlântico, como descrito por Barry Buzan. Ainda que se valorizem os intercâmbios militares – a cooperação naval entre Brasil e Namíbia, por exemplo, aumentou -, reforçam-se as ações e os discursos favoráveis ao desenvolvimento. Apoiador da Agenda 2063 africana, o Brasil tem projetos para a identificação do potencial petrolífero da costa ocidental da África e oferece vagas a estudantes por meio dos programas PEC-G e PEC-PG. A “terceira margem”, portanto, fundamenta-se na busca comum de uma “paz positiva”, a qual combina ausência de guerras com proteção a direitos básicos.
A “terceira margem” do Atlântico Sul é uma construção conjunta, baseada em importantes relações históricas, sociais e culturais. Trata-se da prova de que a diplomacia, por meio de projetos bilaterais e multilaterais, tem o potencial de dar concretude aos valores e objetivos comuns, contribuindo para a paz e para o desenvolvimento da sociedade internacional.
Alberto da Costa e Silva, embaixador e imortal da Academia Brasileira de Letras, realizou diversos estudos sobre a África. Uma de suas obras tem o título de Um rio chamado Atlântico, o qual pode ser considerado metáfora da proximidade histórica, social e cultural entre o Brasil, localizado na margem ocidental do oceano, e os países da África, com destaque para aqueles que têm territórios na margem oriental. A relação entre Brasil e África não apenas influenciou os territórios brasileiros e africanos, mas também resultou na criação de uma “terceira margem do rio”, segundo os termos utilizados por João Guimarães Rosa. Formou-se uma perspectiva comum a respeito do Atlântico Sul, baseada na defesa da paz e do desenvolvimento.
No período da Pangeia, os litorais do Brasil e da África faziam parte da mesma unidade geofísica, a qual foi posteriormente separada pelo oceano Atlântico. O denominado “Mar Oceano” viabilizou os processos responsáveis pelo estabelecimento das primeiras relações entre as duas margens oceânicas: a colonização europeia e a escravidão. Um implicou o desenvolvimento de características religiosas e linguísticas semelhantes. O outro transformou o Brasil no país com a segunda maior população negra do mundo. A violência da ocupação colonial e da escravização de africanos e indígenas resultou em problemas comuns longevos, como a desigualdade e a onipresença do que Maria Sylvia de Carvalho Franco denominou “ajuste violento”. A população de origem africana teve grande influência sobre a cultura brasileira. A arquitetura dos engenhos coloniais assemelhava-se ao desenho dos “agbo-ilês” dos chefes tribais africanos – nas duas margens do Atlântico, predominavam relações patriarcais. No que diz respeito à linguagem, estudo da Universidade Federal da Bahia indica que a repetição do advérbio de negação em frases, como “não quero não”, e a forte entonação das vogais são evidências da influência africana. No âmbito da arte, as obras dos compositores Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus evidenciam a proximidade entre os cantos das religiões iorubás e o samba.
O Brasil tem importância considerável para a África. No período colonial, o alto valor das trocas comerciais aproximou as duas margens oceânicas, o que, depois da independência do Brasil, resultou na proposta africana de unificação política. Após séculos de esquecimento, as relações foram retomadas na década de 1950. A perspectiva lusotropicalista foi, paulatinamente, substituída pelo reconhecimento da dívida histórica do Brasil em relação aos negros. Nas últimas décadas, os contatos foram aprofundados, como exemplificado pelo aumento do comércio, dos intercâmbios culturais e da cooperação. São notáveis, nesse sentido, a construção de fábrica de medicamentos em Maputo e o interesse por novelas e músicas brasileiras em Angola.
A relação entre os países situados nas duas margens do Atlântico Sul resultou na criação da “terceira margem do rio”, baseada nos valores da paz e do desenvolvimento. América do Sul e África foram reconhecidas como zonas livres de armas nucleares pelos tratados de Tlatelolco e Pelindaba. A fundação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), em 1986, livrou essa região oceânica desse tipo de armamento. Os membros da ZOPACAS combatem a “securitização” do Atlântico, como descrito por Barry Buzan. Ainda que se valorizem os intercâmbios militares – a cooperação naval entre Brasil e Namíbia, por exemplo, aumentou -, reforçam-se as ações e os discursos favoráveis ao desenvolvimento. Apoiador da Agenda 2063 africana, o Brasil tem projetos para a identificação do potencial petrolífero da costa ocidental da África e oferece vagas a estudantes por meio dos programas PEC-G e PEC-PG. A “terceira margem”, portanto, fundamenta-se na busca comum de uma “paz positiva”, a qual combina ausência de guerras com proteção a direitos básicos.
A “terceira margem” do Atlântico Sul é uma construção conjunta, baseada em importantes relações históricas, sociais e culturais. Trata-se da prova de que a diplomacia, por meio de projetos bilaterais e multilaterais, tem o potencial de dar concretude aos valores e objetivos comuns, contribuindo para a paz e para o desenvolvimento da sociedade internacional.