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Em O Mistério do Samba, Hermano Vianna descreve como um encontro musical entre intelectuais eruditos, como Heitor Villa-Lobos e Luciano Gallet, e músicos populares, como Donga e Pixinguinha, contribuiu para a “invenção de uma tradição” baseada no samba, uma alusão ao livro de Eric Hobsbawn, A Invenção das Tradições. A nacionalidade brasileira, que os demiurgos Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, presentes no encontro, buscaram analisar, tem, na arte, um de seus principais pilares.
Desde la fundação da Academia Imperial de Belas Artes, passando pelo Modernismo, até a Tropicália, o brasileiro busca encontrar-se em expressões artísticas que descifrem o mistério de sua identidade mestiça e diversa. O Brasil, nesse sentido, nunca foi uma obra pronta; é construído por meio da arte.
A música, em particular, é um campo artístico privilegiado, para entender a identidade brasileira. Nela, referências populares e eruditos combinam-se, para formar a sonoridade única do samba. De forma análoga à identidade brasileira, a música afirma a mestiçagem. O mistério do samba, dessa forma, consiste tanto em sua receptividade a influências externas quanto em sua capacidade de influenciar outras sonoridades, promovendo o encontro entre o popular e o erudito. Exemplo disso é a obra de Pixinguinha, que trouxe arranjos eruditos de flauta transversal para o cancioneiro que anima rodas de choro, populares até hoje. As eruditas “Bachianas Brasileiras”, de Villa-Lobos, por sua vez, são inspiradas na brasilidade rítmica do samba, em cantos populares e em sons da natureza.