CACD

LÍNGUA PORTUGUESA 2022
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Questão q3 de 2022

Tempo: 00:00
Texto Auxiliar 1

Discurso sobre a história da literatura do Brasil

Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem semelhantes a essas luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de não ter produzido inteligências de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pôde cantar com harmonia, quando o retinido das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do universo e gravou seu nome nas páginas da memória? Quem, não tendo a consciência da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o pensamento de sua individualidade? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo, irmãs da glória, fogem do país amaldiçoado, onde a escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.
Se refletirmos, veremos que não são poucos os escritores, para um país que era colônia portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a glória uma independência individual, e um título de mais reconhecimento público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um poeta! Sem distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí um ocioso, um parasita, que não pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (manifesto publicado na revista Nictheroy em 1836). Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br>. Acesso em: 3 mar. 2022 (fragmento).

Com relação aos aspectos linguísticos e ao sentido do texto apresentado, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. O texto defende a concepção de que há autores demais no País, o que dificulta distinguir entre os que versejam por diletantismo e os que têm verdadeiro talento.

  2. A última frase do texto é uma ironia que exprime a crítica do autor ao desprezo dirigido aos literatos no Brasil.

  3. De acordo com o texto, as artes literárias encontram terreno fértil em uma terra onde haja liberdade.

  4. As vírgulas que separam as expressões “com razão” (linha 7) e “as ciências” (linha 16) justificam-se pela mesma explicação sintática.