Discurso sobre a história da literatura do Brasil
Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem semelhantes a essas luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de não ter produzido inteligências de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pôde cantar com harmonia, quando o retinido das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do universo e gravou seu nome nas páginas da memória? Quem, não tendo a consciência da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o pensamento de sua individualidade? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo, irmãs da glória, fogem do país amaldiçoado, onde a escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.
Se refletirmos, veremos que não são poucos os escritores, para um país que era colônia portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a glória uma independência individual, e um título de mais reconhecimento público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um poeta! Sem distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí um ocioso, um parasita, que não pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.
MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (manifesto publicado na revista Nictheroy em 1836). Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br>. Acesso em: 3 mar. 2022 (fragmento).
No que tange aos aspectos linguísticos e ao sentido do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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O termo “fosfoream” (linha 6) possui sentido crítico e remete à debilidade dos produtores de arte no Brasil.
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O pronome pessoal “eles” (linha 5) relaciona-se ao seu antecedente “os homens” (linha 2).
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O sujeito da forma verbal “podem” (linha 20) é composto por dois núcleos: “escravidão” (linha 19) e “liberdade” (linha 19).
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Na linha 26, os pronomes oblíquos em “desmerecê-lo” e “desviá-lo” referem-se ambos a “literato” (linha 23).