Por uma reescrita da história literária brasileira
Não é possível falarmos acerca da elaboração de uma nova história da literatura brasileira e da inserção das escritoras mulheres nessa história sem antes entendermos como se dá o processo de construção das histórias e do cânone literários. O historiador também tem o poder de legitimar o escritor e a literatura, pela inclusão e abertura de espaço para análise e consideração de sua obra literária. O contrário também é possível, pois, ao excluir escritores, acaba silenciando uma produção que gradualmente vai sendo esquecida, como foi o caso das escritoras oitocentistas.
De acordo com David Perkins, uma história da literatura se constrói por meio de um enredo, que é o discurso feito a respeito de determinada produção. Assim, os historiadores da literatura podem condenar escritores e obras, podem defender estilos não apreciados e podem, também, ser motivados por um conjunto de emoções diferentes: “qualquer que seja o enredo imposto aos eventos, o simples fato de serem organizados em forma de narrativa pode, ele mesmo, preencher o desejo.” Tendo em vista a consciência do desejo que motiva e dá vida a uma memória literária, a questão é: até que ponto a intenção organizadora subjacente ao processo de escrita de uma história da literatura justifica as suas omissões e ênfases? Mais especificamente: no intercâmbio dialético entre luz e sombra, por que a literatura escrita por mulheres é sombra constante nesse tipo de discurso?
Ao tratar de histórias da literatura, devemos sempre considerar que elas não são totalidades permanentes, mas sim objetos dinâmicos, pois encontram-se sob o signo da contingência, em constante processo de redefinição. Uma vez publicada a história da literatura, há possibilidades de novas fontes, novos documentos históricos; o historiador, em contínuas pesquisa e busca, pode descobrir um documento inédito e, então, reformular sua hipótese. Essa perspectiva da mobilidade e do constante processo de redefinição serve-nos de conforto, na medida em que torna possível e viável a iluminação sobre a literatura de autoria feminina até hoje obnubilada nos discursos sobre a produção literária brasileira. Entretanto, se, ao atualizar a história da literatura, mantemos o padrão de silenciamento dos textos de autoria feminina, torna-se impossível repensar o cânone literário. Observa-se que, ironicamente, algumas escritoras oitocentistas não foram excluídas em vida, mas o esquecimento foi implacável com a exaltação outrora experimentada por elas.
FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas: Narcisa Amália, Júlia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e as adversidades da escrita literária de mulheres. Rio de Janeiro: Macabéa, 2022, págs. de 39 a 64, com adaptações.
Tendo em vista a estrutura gramatical do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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No trecho “Não é possível falarmos acerca da elaboração de uma nova história da literatura brasileira” (linhas 1 e 2), a segunda oração exerce a mesma função que o termo sublinhado em “Ao tratar de histórias da literatura, devemos sempre considerar que elas não são totalidades permanentes” (linhas 28 e 29).
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A oração iniciada por “na medida em que” (linha 37), introduz a causa do conforto que se sente com a perspectiva da mobilidade e do processo constante de redefinição da história da literatura.
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A forma verbal “há” (linha 32), poderia ser substituída, no texto, tanto por existe quanto por existem, sem que isso acarretasse alteração de sentido ao texto, nem incorreção gramatical.
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O conectivo “pois” (linha 8) tem valor conclusivo acerca do silenciamento de escritores que acabam sendo esquecidos, uma vez que a referida conjunção se apresenta após a forma verbal “é”.