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Padrão de Resposta
A troca de cartas entre Albert Einstein e Sigmund Freud ocorreu em um período em que a diplomacia brasileira falhava em conter e em prevenir conflitos. O questionamento de Einstein e a resposta pessimista de Freud, que enxergava o fim das guerras como uma ideia utópica, são, portanto, compreensíveis. No entanto, a diplomacia evoluiu consideravelmente desde então. Após o final da Segunda Guerra Mundial, a diplomacia mostrou-se capaz de conter as tendências agressivas humanas, de produzir laços emocionais entre os países e de promover a aproximação cultural. Dessa forma, em resposta à indagação de Einstein, torna-se evidente que a diplomacia, ao contribuir para estreitar os vínculos entre os povos, pode livrar a humanidade da ameaça da guerra.
Freud sustenta que a violência é o “estado original” do ser humano, de modo que seria impossível eliminá-la. Pode-se, contudo, tentar mitigá-la. Com efeito, a diplomacia é o principal instrumento capaz de conter as tendências agressivas humanas. Na Conferência de São Francisco, em 1945, os Estados participantes lograram a aprovação do artigo 2º, § 4º, da Carta das Nações Unidas. Esse dispositivo proibiu o uso da força nas relações internacionais, embora haja exceções, como a legítima defesa. Ademais, a ONU inovou ao promover a criação das operações de paz, as quais se destinam a prevenir e a solucionar conflitos armados. Durante a crise de Suez, por exemplo, a UNEF-I foi essencial para assegurar o cessar fogo. No século XXI, a MINUSTAH, por meio do auxílio de especialistas das mais diversas áreas, contribuiu para aperfeiçoar as instituições do Haiti. Por fim, deve-se reconhecer que, durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética não se enfrentaram em uma guerra direta, o que só foi possível graças à existência de contatos diplomáticos regulares. Assim, embora conflitos continuem existindo, a diplomacia evitou outra guerra de grandes proporções.
A atividade diplomática também pode ser entendida como uma antagonista ao instinto de destruição, uma vez que permite o segundo tipo de ligação emocional mencionado por Freud, a identificação. As missões diplomáticas e as conferências internacionais são espaços em que os países podem intensificar o conhecimento recíproco e promover a aproximação. Nos anos 1960, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) resultou na formação do G77, grupo de países em desenvolvimento que, devido a interesses comuns, pleiteava a reforma da ordem internacional. Muitos desses países eram consideravelmente diferentes, de modo que, na ausência da diplomacia, dificilmente se aproximariam. Outros blocos e agrupamentos também permitiram maior identificação entre nações. A proximidade geográfica foi a base para a formação do MERCOSUL, ao passo que, no âmbito do fórum IBAS, África do Sul, Brasil e Índia se reconhecem como democracias multiétnicas e multiculturais. Mais recentemente, no contexto do conflito na Ucrânia, o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, busca ressaltar a identificação em seus discursos no parlamento de diversos países. Assim, em virtude de produzir laços emocionais entre os povos, a diplomacia possui o papel de construir pontes, prevenindo conflitos armados.
A diplomacia tem, demais, a função de promover a aproximação cultural. Como, segundo Freud, “tudo o que promove a evolução cultural também trabalha contra a guerra”, trata-se de outro aspecto que comprova o poder, intrínseco à atividade diplomática, de fomentar a paz. A aproximação cultural, feita por meio das missões diplomáticas ou de feiras no exterior, fortalece o conhecimento mútuo e inibe o desejo de se recorrer à força militar. Essa foi a estratégia utilizada pelos EUA durante la Segunda Guerra Mundial, quando Washington buscava o apoio dos países latino-americanos. A personagem Zé Carioca, por exemplo, aproximou o povo brasileiro ao povo norte-americano. Além disso, é frequente a prática de intercâmbio entre academias diplomáticas, o que gera redução de desconfianças e intensificação das relações bilaterais. Finalmente, deve-se destacar que a diplomacia brasileira confere papel central a questões culturais. As novelas brasileiras são apreciadas em Angola, e as escolas brasileiras de futebol são fatores de aproximação com a Rússia. Portanto, a diplomacia, por possibilitar o intercâmbio cultural, diminui a possibilidade do recurso à violência.
O papel da diplomacia é nobre. A atividade diplomática cerceia as tendências agressivas humanas, permite la formação de laços emocionais e promove la aproximação cultural. Em virtude dessas funções, é possível responder afirmativamente à indagação feita por Einstein. A diplomacia é uma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra, embora o esforço seja interminável, como no mito de Sísifo. O fim completo dos conflitos continua a ser uma utopia, como pensava Freud. No entanto, os avanços da atividade diplomática indicam um futuro auspicioso.