Mas não há casa-grande sem a senzala, e foi em torno desse duo, que parece composto de opostos, porém na verdade abrange partes contíguas, que Gilberto Freyre publicou, em 1933, seu clássico Casa-grande & senzala, evidenciando as contradições e relações que se estabeleciam entre senhores e escravos. O próprio “&” do título original já revela como o antropólogo pernambucano entendia a importância da correlação entre esses dois extremos. “Equilíbrio de antagonismos de economia e de cultura” foi a expressão utilizada por ele para demonstrar como paternalismo e violência, mas também negociação de parte a parte, coexistiam nesse cotidiano.
“Senzala” é um termo do quimbundo que significa “residência de serviçais em propriedades agrícolas”, ou “morada separada da casa principal”. Nas senzalas da cana residiam dezenas de escravos, que podiam chegar às centenas, com frequência presos pelos pés e braços, deitados em chão de terra e em péssimas condições de higiene ‒ como ter numerosos escravos era sinal de prosperidade e abastança, o senhor preferia quantidade a qualidade. As circunstâncias variavam: por vezes os escravos eram alojados coletivamente; em outras situações foram achados registros de barracões distintos para homens e para mulheres, e em alguns casos até mesmo alojamentos para casais com filhos. No Nordeste, o mais normal era encontrar barracas contíguas, dispostas em filas e a certa distância da casa-grande. As senzalas eram trancadas à noite por feitores, a fim de evitar fugas e de estabelecer disciplina, pois dessa maneira se determinava o horário de se recolher e de despertar. […]
Por sinal, diversos elementos faziam parte da performance de senhor “aristocrata”: as roupas, a mobília, os cavalos puros-sangues, a alfabetização numa terra de iletrados, a capacidade de mando. […] Na medida em que eram considerados pagãos, tanto indígenas como africanos, apesar de batizados e transformados em vassalos, continuavam sem direitos. Dessa forma, as divisões entre “gentios” e “índios aldeados”, ou entre “africanos”, “boçais” (aqueles recém-chegados) e “ladinos” (aculturados), representavam gradações culturais que demarcavam hierarquias internas, as quais, no limite, implicavam maior ou menor exclusão social. Os mais de dentro e os mais de fora.
[…] Essas populações podiam ser denominadas simplesmente mestiças (provenientes de uniões entre escravos e seus senhores); cabras (termo que quase sempre se referia à mistura do índio com o negro); morenas (palavra que vem de “mouro” mas guarda antes o significado “de cor escura”), ou pardas: a cor parda ainda hoje consta no censo brasileiro, e mais parece um “nenhuma das anteriores”, um grande et cetera ou um coringa da classificação.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, com adaptações.
Considerando os aspectos linguísticos e o sentido do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
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No primeiro parágrafo, “antropólogo pernambucano” (linha 7) e “ele” (linha 10) estabelecem referenciação anafórica com “Gilberto Freyre” (linha 3).
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A inserção de vírgula após a palavra “cana” (linha 15) manteria a correção gramatical e os sentidos construídos no período.
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A palavra “até” (linha 24) estabelece um sentido de limite em relação aos alojamentos constituídos dentro das senzalas.
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Na forma verbal “se determinava” (linha 29), o emprego da partícula “se” marca a indeterminação do sujeito da oração.