As redes que articulam as relações internacionais contemporâneas possuemnaturezas distintas: observam-se, por exemplo, redes legais, estruturas construídaspelos governos, coordenadas por organizações internacionais e reguladas por tratadosválidos do ponto de vista do direito internacional público, cujo teor se encontradevidamente internalizado nos ordenamentos jurídicos dos Estados-parte. Por seuintermédio, os governos estabelecem ritmos e condições para a evolução de alguns dosfluxos mais relevantes no ambiente internacional contemporâneo. Nelas, definem-se,por exemplo, as normas que regulam o direito dos indivíduos de atravessar legalmenteas fronteiras nacionais, as preferências comerciais que condicionam os fluxos deprodutos, as normas que comandam os investimentos financeiros e, por conseguinte, aoferta de crédito em âmbito global.
Outro tipo de rede resulta da implementação das estratégias empresariais: aobuscarem maximizar lucros, as firmas intensificam as trocas internas segundo suaspróprias regras, em função das estruturas disponíveis (normativas, tributárias,mercadológicas, entre outras). Como resultado, registra-se o elevado crescimento dastrocas intrafirmas, nem sempre contabilizadas adequadamente pelos governos. Issocoloca em questão até mesmo o modo como se aferem os fluxos de riquezas no planointernacional: com efeito, economistas começam a considerar excessiva a ênfase quese confere às trocas comerciais entre Estados nacionais, advertindo para necessidadede se mensurarem, também, os fluxos intrafirmas, sem os quais as avaliações que seproduzem do lado real das economias podem revelar-se imprecisas. Nessas condições,cabe lembrar os cuidados que se deve tomar ao se discutirem balanços de pagamentose suas crises, visto que nem sempre registram as reais transferências de riquezas quese observam entre as economias.
Embora sirvam mais a proteger as empresas e seus ativos das intervenções dosgovernos do que a submetê-las aos diferentes ordenamentos nacionais, essas redestambém redefinem as condições de alocação de recursos, de acesso a informações, deatendimento a necessidades e de geração de novas expectativas. Usualmenteestruturadas em função de cadeias de comando e controle universais, essas redescaracterizam-se por conferir relativa autonomia a cada um de seus polos, permitindoas necessárias adaptações de processos padronizados a contextos e saberes locais.É nesse ambiente que se constroem modelos de automóveis, softwares, computadores,telefones celulares aptos a servirem, a um tempo, a escalas globais de produção e ademandas locais de especialização. Assim, em decorrência da sofisticação aportada àprodução industrial pela economia do conhecimento, surgem produtos suficientementeflexíveis para enfeixar qualidades contraditórias, produtos, ao mesmo tempo, globais epersonalizados: aquilo que lhes é comum assegura o baixo custo de sua produção e,em alguns casos, sua conectividade; as necessidades idiossincráticas dos clientes sãogarantidas pela personalização da produção, via de regra em modelos just in time queemulam a fórmula de Dell, cujo sucesso já se estende à fabricação de automóveis.
Obviamente, o mesmo se observa em outras indústrias, tais como a da moda e ada alimentação, fenômeno que se mostra ainda mais intenso no setor de serviços,evidenciado pela transferência da prestação de serviços para outros países e sobre aestruturação de cadeias que, mundialmente, oferecem os mesmos serviços emqualquer parte do mundo, processos marcantes em setores tais como o de saúde, o dehotelaria e o de alimentação. Características semelhantes a essas marcam também asredes de organizações não governamentais (ONGs), cuja relevância no atual contextointernacional não para de crescer e cujas atividades estão muito longe de seremdevidamente conhecidas pelos governos e pelas sociedades em que elas atuam. Nospaíses mais pobres, essas redes de ONGs chegam a controlar recursos comparáveisaos orçamentos dos governos; em outros países, implementam políticas públicas aserviço dos governos.
Um terceiro tipo de rede caracteriza-se pela existência de atividades e processosque se desenvolvem fora do alcance da lei. Também essas redes se estruturam emnódulos relativamente fixos, por meio dos quais fluxos ilícitos trafegam, engendrandotrocas de valores entre agentes, não raro atravessando fronteiras nacionais. Tambémnelas há normas de conduta e estruturas relativamente institucionalizadas de comando
e controle sobre os fluxos, processo facilitado sobremaneira pelas atuais condiçõestecnológicas, que possibilitam tanto a conectividade entre os agentes quanto o efetivotráfico de armas, drogas, animais, seres humanos e seus órgãos, ocasionalmente pormeio de empresas que, estabelecidas legalmente, se valem das estruturas decomércio, turismo e da intermediação financeira para realizar atividades criminosas.
Essas redes não se estruturam necessariamente de forma autônoma eindependente, mas podem relacionar-se umas com as outras. Os vasos comunicantesque se estabelecem entre elas tornam obscuras algumas das atividades que podemparecer discretas, autorreferenciadas. Na verdade, com alguma frequência, essasestruturas se enredam em uma mesma teia, que se estende em vários espaços, demodo a estabelecer pontos de atração e de difusão de informações e recursos,incentivos a que agentes participem de um ou de outro tipo de atividade e, em algunscasos, de mais de um deles simultaneamente. Pouco a pouco, emaranham-se os fiosdas redes, misturam-se os processos, confundem-se os agentes. Não é outra a fontedas dificuldades que os governos enfrentam para levar adiante medidas de combateaos ilícitos internacionais e aos crimes conexos, frequentemente associados aatividades extremamente lucrativas. Cedo ou tarde, as receitas dessas atividadesincorporam-se às economias legais, beneficiando simultaneamente os grupos quecontrolam as redes criminosas — porque eles buscam legitimar-se e proteger-se dasautoridades — e contribuindo, indiretamente, para reduzir insatisfações políticas epressões sociais das hordas populacionais excluídas do processo de desenvolvimento eda moderna economia capitalista.
Se existe algo em comum entre essas diversas redes, trata-se da semelhançaque se observa nas relações políticas empreendidas pelos agentes que delasparticipam. Com efeito, essas redes se estruturam em função de normas que definemcompetências específicas a cada tipo de agente, diferenciando-lhes as funções, demodo a abrir-lhes possibilidades de influenciar o curso dos acontecimentos, seja pormeio da imposição de sua vontade aos demais, seja pela via da participação naconstrução de consensos sobre problemas comuns ou, ainda, de estruturasregulatórias enviesadas. De fato, nenhum conjunto de normas é neutro; qualquerestrutura regulatória condiciona os esforços produtivos das variadas comunidades demodo a beneficiar alguns agentes em detrimento de outros, que arcam com os custosdas ações coletivas. Assim, por estabelecerem incentivos que privilegiam uns mais queoutros, as normas desempenham a função de atribuir poder a determinados agentesem diferentes áreas das relações internacionais, de modo que sua feitura constitui, emsi, processo político relevante.
Antonio Jorge Ramalho da Rocha. O lugar do Brasil na geopolítica global. In: José FlávioSombra Saraiva; Amado Luiz Cervo (Org.). O crescimento das relações internacionais no Brasil.
Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), 2005, p. 92–96 (com adaptações).
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