No filme Arte da diplomacia, o diretor Zeca Brito aprofunda a pesquisa do diplomataHayle Melim Gadelha sobre a exposição de 1944, que foi parcialmente remontada em 2018 pelaEmbaixada do Brasil em Londres, para investigar o Modernismo brasileiro em seu primeirolevante de internacionalização, um fascinante episódio em que os artistas e suas obrasinfluenciaram a composição geopolítica e posicionaram simbolicamente o país na SegundaGuerra Mundial — arte como soft power no combate ao nazifascismo, nas palavras do diretor.Refletindo sobre o papel da arte em tempos de guerra, o filme Arte da diplomacia mergulhanas águas históricas tumultuadas da Segunda Guerra Mundial, revelando um capítulo poucoconhecido, porém significativo, da relação entre o Brasil e o Reino Unido durante esse período.Esse capítulo se inicia quando, reagindo a uma carta dos artistas Alcides da Rocha Miranda eAugusto Rodrigues, o chanceler Oswaldo Aranha abraçou mais um projeto que o consagrariacomo um dos principais diplomatas brasileiros: a empreitada de mandar 168 quadrosmodernistas ao Reino Unido. No âmbito internacional, a arte plástica brasileira não apenascativou audiências, mas também serviu como uma ferramenta diplomática poderosa. A exibiçãoda arte moderna brasileira em Londres, em 1944, foi uma forma de enviar um recado para osnazistas, conforme a pesquisadora Clara Marques relata quando foi entrevistada em Arte dadiplomacia: “Tem uma certa provocação ali de mandar para os inimigos da Alemanhajustamente o tipo de arte que o próprio Hitler mais detesta”, explica Marques. Assim, enquanto aForça Expedicionária Brasileira lutava nas montanhas da Itália, os setenta pintores modernistasse uniram para enviar seus quadros até Londres, que estava sob ataque dos nazistas.
Arte da diplomacia: conheça o longa coproduzido por Celina Torrealba.In: Estado de Minas, 15/5/2024. Internet: <www.em.com.br> (com adaptações).
A diplomacia brasileira é, em seu momento inicial, uma diplomacia de fundação, e foi essafundação no plano cultural que buscaram e lograram Domingos José Gonçalves de Magalhães eFrancisco Adolfo Varnhagen. Gonçalves de Magalhães, ao internalizar as ideias românticas,quando servia como diplomata na Europa, trouxe para o Brasil o ideário de uma literaturanacional. Como observou Antonio Candido, em Formação da literatura brasileira, Gonçalvesde Magalhães levou escrupulosamente a sério a tarefa de criar uma nova literatura e foi umafaísca renovadora do processo pelo qual, no correr dos tempos, o desejo dos brasileiros de teremuma literatura própria se tornou uma realidade cultural. Existe, no autor de Grande sertão:veredas, uma permanente tensão entre o regional e o universal. Como aprendemos comAntonio Candido no seu extraordinário ensaio “O homem dos avessos”, publicado em Tese eAntítese, entrar na realidade fluida do mundo é condição para melhor compreendê-lo e paravoltarmos “mais claros a nós mesmos e aos outros”. Em famosa e rara entrevista concedida aGünter Lorenz, Guimarães Rosa afirmava que, na sua visão, os escritores poderiam ser divididosentre os sertanejos e os demais. À primeira categoria pertenceriam autores como Goethe,Dostoievski e Flaubert, enquanto Zola, por exemplo, “provinha apenas de São Paulo”. O sertão,prosseguia ele, é “o território da eternidade, da solidão, onde o interior e o exterior já nãopodem ser separados”. Traduzir necessidades internas em possibilidades externas para ampliar opoder de controle de uma sociedade sobre o seu destino é, no meu entender, a tarefa da políticaexterna. Creio, nessa linha, não ser de todo descabido aproximar simbolicamente a capacidadelúdica do grande escritor mineiro de transportar o território mágico do sertão para o mundo, desua atuação à frente da divisão de fronteiras do Itamaraty. Sua capacidade ímpar de utilizar deregistros linguísticos diversos era, no plano literário, o correlato perfeito daquele que é oprimeiro item de qualquer agenda diplomática, ou seja, a fixação das fronteiras, base daespecificidade da política externa que pressupõe uma diferença entre o “interno” (o espaço
nacional) e o “externo” (o mundo). Ele traduzia, assim, em sua literatura um dos princípiosfundamentais da diplomacia brasileira, uma linha de ação voltada para transformar nossasfronteiras de clássicas fronteiras-separação em modernas fronteiras-cooperação.
Celso Lafer. In: Alberto da Costa e Silva (org.); Paulo Roberto de Almeida (ed.). O Itamaraty na cultura brasileira. Brasília:Fundação Alexandre de Gusmão — FUNAG, 2021, p. 13-7 (com adaptações).
A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive opapel contraditório, mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório). De fato,quando elaboram uma estrutura, o poeta ou o narrador nos propõem um modelo de coerência,gerado pela força da palavra organizada. Quer percebamos claramente ou não, o caráter decoisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar anossa própria mente e sentimentos; e, em consequência, mais capazes de organizar a visão quetemos do mundo. Por isso, um poema hermético, de entendimento difícil, sem nenhuma alusãotangível à realidade do espírito ou do mundo, pode funcionar neste sentido, pelo fato de ser umtipo de ordem, sugerindo um modelo de superação do caos. A produção literária tira as palavrasdo nada e as dispõe como um todo articulado. Este é o primeiro nível humanizador, ao contráriodo que geralmente se pensa. A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva,primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. Mas as palavras organizadas sãomais do que a presença de um código: elas comunicam sempre alguma coisa, que nos tocaporque obedece a certa ordem. Em palavras usuais: o conteúdo só atua por causa da forma, e aforma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental quepressupõe e que sugere. O caos originário, isto é, o material bruto a partir do qual o produtorescolheu uma forma, se torna ordem; por isso, o meu caos interior também se ordena e amensagem pode atuar. Toda obra literária pressupõe esta superação do caos, determinada porum arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.
Antonio Candido. O direito à literatura. In: Vários escritos. Rio de janeiro: Ouro sobre Azul, 2017, p.178-80.
Considerando que os fragmentos de texto apresentados têm caráter unicamente motivador, redija um texto dissertativo acerca doseguinte tema.
ARTE E DIPLOMACIA NA INTERPRETAÇÃO E NA HUMANIZAÇÃO DAS FRONTEIRAS DO MUNDO