×
Padrão de Resposta
A União Européia (UE) ganhou nova dimensão com a adesão dos países do Acordo
de Visegrad (Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia), das três repúblicas bálticas
(Estônia, Letônia, Lituânia), além da Eslovênia, Malta e a parte grega de Chipre. As
promessas de um futuro melhor para tais países são muitas, apesar das dificuldades que
serão enfrentadas para a conversão de empresas que ainda funcionam no estilo burocrático
soviético, a configuração de infra -estrutura mais moderna e a pressão sobre os movimentos
interfronteiriços de pessoas. A Alemanha é a grande vitoriosa de tal processo, pois, apesar
dos ressentimos que ainda a afasta de alguns povos (sobretudo dos checos), conseguiu
imantar a noção de “Europa Central”.
Quanto ao Brasil, que já vinha negociando de forma gradual com a UE algum nível
de união política e econômica, a adesão de 10 novos membros pode parecer, à primeira vista,
congelar diálogo de uma década. Ressalta-se que o Acordo-Quadro de Cooperação
Mercosul/UE (1995), quando foi estabelecida a Comissão Mista de Cooperação, foi
precedida pela declaração de autoridades européias na ilha de Corfu (1994) sobre o
compromisso inequívoco de união entre duas regiões que compartilham valores, cultura e
raízes étnicas comuns. A aceleração do diálogo entre os dois blocos tomou força em 1999, em
Bruxelas, quando do estabelecimento do Comitê de Negociação Comercial. Recentemente,
durante a Terceira Reunião da ALCUE (América Latina/Caribe/UE), no México, o primeiro
fórum internacional em que a “Europa dos 25” participa, foi afirmado que o alargamento da
UE não acarretará retrocesso no diálogo Mercosul/UE. Pelo contrário, o Comissário
Europeu do Comércio Exterior, Pacal Lamy, apresentou novas ofertas para o Acordo entre
os blocos. As negociações bilaterais, que avançaram significativamente em 2004 e apontam
para um acordo final, estão polarizadas na demanda do Mercosul para o fim de quotas para
produtos primários e a exigência européia para maior acesso ao mercado de compras
governamentais e serviços dos países do Cone Sul.
Assim exposto, um olhar de longo prazo revela que os entendimentos entre Brasil e
UE não foram afetados pelo alargamento do bloco europeu. A curto prazo, pelo contrá rio, a
integração de novos países possivelmente acarretará desvios de comércio para produtos onde
o Brasil é competitivo. Considera-se principalmente o comércio agrícola, setor em que a
Polônia, concorrente do Brasil no mercado de carnes e laticínios, terá acesso privilegiado ao
mercado europeu. Da mesma forma, o mercado siderúrgico brasileiro perderá espaço em
decorrência da modernização do setor na República Checa, cuja indústria siderúrgica,
concentrada na cidade de Ostrava, modernizou-se com o processo de privatizações. A
americana US Steel, por exemplo, realizou altos investimentos na região. Quanto ao setor
automobilístico, é difícil saber as consequências para as exportações brasileiras, uma vez
que as fábricas da Volkswagen no “antigo Leste Europeu” estão no mesmo plano estratégico
da marca alemã, que possui no Brasil suas plantas mais modernas. Por outro lado, existem
setores de bens de consumo no Brasil que projetam incremento das exportações para o
mercado europeu com o aumento da renda dos novos membros da UE.
Percebe-se, assim, que desvios de comércio brasileiro são esperados com o
alargamento da UE, apesar do projeto europeu considerar com firmeza os laços com o
Mercosul, tal qual revelado com o diálogo construtivo entre os blocos. De fato, a Europa não
pode deixar que a região seja domínio exclusivo dos EUA, país que avança agressivamente
para a configuração de área de livre comércio não só nas Américas (ALCA), mas também
com a constituição da União do Magreb Árabe (UMA), na zona de influência direta da
Europa.
Enquanto o Acordo Comercial entre o Mercosul e a Europa dos 25 vai tomando sua
formatação final, a diplomacia presidencial funciona como instrumento de aproximação
entre a Europa e o Brasil. Na última Cúpula do G-8 em Sea Island (Geórgia), Jacques Chirac
cobrou de Bush a presença de Lula no fórum. Na recém concluída UNCTAD XI, em São
Paulo, o Grupo dos 5 (ONU, Brasil, França, Chile e Espanha) trocou idéias para o
estabelecimento de um fundo mundial de combate à fome. Os interesses que unem o país sulamericano à UE são demasiado profundos para serem afetados com a admissão dos 10 novos
países, cujos efeitos para a inserção internacional do Brasil concentram-se, a curto -prazo, no
comércio.