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Padrão de Resposta
A Cúpula América do Sul – Países Árabes (ASPA), realizada em Brasília nos dias 10
e 11 de maio de 2005, fundamenta-se na tradicional defesa da cooperação sul-sul defendida
pelo Brasil, na necessidade de maior integração político-cultural entre as regiões, e na
importância econômica de América do Sul e dos Países Árabes.
O Presidente Lula elegeu os países árabes como prioridade de sua política externa,
ao lado de África e América Latina. O encontro teve, grosso modo, três vertentes, cada uma
delas associável a um interesse brasileiro de política externa: (a) política; (b) econômicocomercial; (c) cultural.
Sob o ponto de vista político (a), a Cúpula coroou esforço empreendido pelo governo
Lula de aproximar as regiões, estabelecer laços de cooperação política e defesa de interesses
comuns. Tal foi, em grande parte, o sentido de sua viagem, em 2003, a Líbia, Egito, Síria e
Emirados Árabes. A iniciativa reforça os laços de cooperação sul-sul, tal qual preconizado
desde a Conferência de Bandung de 1955 e pela Política Externa Independente de Afonso
Arinos de Mello Franco, San Tiago Dantas e Araújo Castro. O apoio dos 22 países árabes
presentes à ASPA seria ativo diplomático importante em qualquer foro internacional.
Como fruto dessa aproximação,o Brasil é o primeiro país latino-americano admitido
como observador na Liga Árabe. O País angaria, ainda, a simpatia de muitos deles em seu
pleito por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Ainda da seara política, convém mencionar que a Carta de Brasília é,
fundamentalmente, um documento político. Contém ela a condenação de medidas unilaterais
(dos EUA) contra a Síria, faz forte apelo à paz e pela desocupação dos territórios palestinos,
e prega a desnuclearização. Esses temas, espinhosos, são caros aos árabes; mas foi possível
deles tratar, reiterando resoluções da ONU: o que parecia temerário declarar tornou-se
prestígio ao multilateralismo, bem recebido pelos EUA (apesar de lhes ter sido negada a
condição de observador da ASPA). Convém, quanto aos alegados riscos políticos de tal
encontro, lembrar a advertência de Amado Cervo: “nada de importante em política
internacional se faz sem riscos”.
Quanto a (b) aspectos econômicos-comerciais, os países árabes reúnem um PIB de
US$ 815 bilhões, e detêm grandes jazidas de petróleo. A aproximação com os países árabes é
importante para a ampliação da diversidade de parceiros comerciais do Brasil, tornando o
País menos suscetível a desequilíbrios momentâneos e a dependência. Trata-se de mercado
potencial para inúmeros setores da economia brasileira, como construção civil, avicultura e
produtos agrícolas diversos.
O mundo árabe é cortejado há tempos por China, Japão, EUA e UE. É região
dinâmica, rica e estratégica. Ao Brasil, trata-se de momento favorável para a aproximação,
diante da postura desgostosa da Liga Árabe, da União do Magreb Árabe e do Conselho de
Cooperação do Golfo em relação à política externa norte-americana (em especial em função
da Guerra do Iraque). Abre-se, assim, espaço para acordos simétricos, como os que foram
gestados na ASPA: acordo Mercosul-Conselho de Cooperação do Golfo (que reúne seis
importantes países do Oriente Médio), acordos Mercosul com Egito e Marrocos, além de
acordos privados, na medida em que mais de 800 empresários estavam presentes. Destaquese, ainda, encontro paralelo entre Kirchner, Chavez e Lula, que avançou nas negociações da
Petrosul, que reuniria petrolíferas dos três países.
Assim, a ASPA atende a interesses brasileiros econômico-comerciais, pois pulveriza
parcerias, estabelece relações simétricas e, ainda que se alegue que não substitui, desonera
negociações de Alca e Mercosul-EU, sendo alternativa ainda que parcial.
A (c) vertente cultural é igualmente importante. O Brasil abriga enorme colônia árabe
e, ao liderar ηiniciativa da ASPA, contribui para o diálogo cultural e firma-se como líder
legítimo do continente sul-americano. O encontro insere-se nos objetivos do GADN (“Global
Agenda for Dialogue among Nations”), aprovada na ONU (Resolução 56/6, de 09 de
novembro de 2001). De fato, a ASPA concretiza um “diálogo de civilizações”, que credencia
o Brasil como interlocutor de variados grupos que, como país de imigração, acolheu.
Resultados importantes desse encontro foram o projeto de um Centro de Cultura SulAmericano, a ter sede no Marrocos, e da concepção de uma Biblioteca Árabe-Sul-Americana.
Portanto, a ASPA foi capaz de materializar fundamentos e interesses tradicionais da
política externa brasileira, promovendo o diálogo e cooperação sul-sul, afirmando sua
proeminência não-hegemônica na América do Sul, diversificando parceiros comerciais e
unindo civilizações, em uma combinação de pragmatismo e idealismo.